quinta-feira, 5 de maio de 2011

Um Homem sem Nome

Não há dúvida que ele é um dos maiores que já existiu

Um homem sem nome não pode ser de confiança, ainda mais sendo ele um estrangeiro em terra de estrangeiros. Irônico, mas foi assim que Clint Eastwood imortalizou seu nome: sem nome. Prestes a completar 81 anos, temos muito o que agradecer a este homem, político, cineasta, músico e pensador.

Poucos sabem, mas a vida deste octogenário nem sempre esteve perto do cinema. Nascido em 1930, na época da grande depressão americana, passou por diversos empregos e mesmo após se formar na Universidade de Oakland, ainda trabalhou como atendente de posto de gasolina e bombeiro.

Em 1950, Clint foi convocado ao exército. Numas das viagens, seu avião caiu, quase morreu no acidente. Em função disto, ficou impedido de lutar na Guerra da Coréia. Poderia ter morrido depois, melhor quase morrer antes. Imagine o que perderíamos se isso ocorresse? Se não sabe, vou tentar lhe explicar brevemente.

Sua carreira começou um tanto tardia, quase aos trinta, fazendo pontas em filmes de segunda linha. Em 1959, trabalhou com o diretor James Garner na conhecida série “Maverick”, um prenúncio de que sua vida seria associada ao mundo do western. Apesar do sucesso, foi somente em 1964 que o mundo conheceu seu nome na Trilogia dos Dólares, filmes estes dirigidos pelo italiano Sérgio Leone. Seu personagem não tinha nome, mas seu estilo calado de poucas expressões imortalizou o gênero western, que na época, se arrastava no cinema americano e ganhava sobrevida com o spaghetti western da Europa. Sim, foi na Itália que Eastwood ganhou fama em sua terra natal. Sobre ele, Leone disse certa vez: “Eu gosto do Clint porque ele tem somente duas expressões faciais. Uma com chapéu e outra sem ele.”

A partir daí sua carreira deslanchou. Os críticos não entenderam muito bem na época o que acontecia e demorou um tempo para darem o devido reconhecimento. Todavia, com o público não aconteceu o mesmo, seu sucesso influenciou gerações (Quentin Tarantino disse certa vez que decidiu ser cineasta após vê-lo em "Por um punhado de doláres". Ou seja, sem Clint, não teríamos "Bastardos Inglórios" nem "Pulp Fiction"). Na década de 70 começou sua parceira com Don Siegel no filme Dirty Harry(por aqui "Perseguidor Implacável"). Resultado: mais um mito criado. “Vá em frente, faça meu dia”, diz Dirty, ansioso em ver o mau para poder puxar o gatilho. O filme ganharia mais quatro sequencias. Sua gana para cumprir a leis até as últimas consequências mexeu com a consciência liberal americana.

Na mesma época, Eastwood iniciou sua brilhante carreira de diretor com o filme “Perversa Paixão” sobre um radialista que começa a ser perseguido por uma fã lunática. Diferente dos trabalhos de ator, quando diretor, ele parece se dissociar no western, teoria criada por diversos críticos, mas que não se sustenta. Perceba que ao assistir os filmes dirigidos por ele, invariavelmente verá as mesmas pessoas na equipe técnica, como Joel Cox(editor) e Jack Green(fotografia), para citar alguns. As vantagens são óbvias. Conhecendo a equipe, não é preciso muito tempo para alinhar o pensamento. Durante as filmagens, não se ouve muito barulho, apenas as palavras “Ok”, “Corta”, “Ação”. O cowboy de poucas palavras continua por trás das câmeras, implacável. Seus filmes não demoram mais que quatro semanas para serem editados. Os atores agradecem, quase sempre indicados aos grandes prêmios.

Suas histórias procuram explorar o lado humano. Cada filme possui uma temática diferente. Exemplo disto é seu último longa “Além da Vida”, que trata do complicado tema da morte. Ora, o que Clint poderia falar sobre a morte? Tudo, com uma propriedade e imparcialidade magistrais. Não se trata de um filme espírita em que um médium fica falando com os mortos ou psicografando cartas cheias de obviedades. E o melhor disto é que não precisamos ver o filme para descobrir, basta saber quem o fez.

Seus filmes nunca tiveram grandes orçamentos. Mesmo tendo sucesso como ator, foi somente com o clássico “Os Imperdoáveis” que ganhou a graça do público e da academia americana por seu trabalho na direção. Lançado em 1992, o filme conseguiu excelentes bilheterias e foi indicado a 9 oscars, vencendo 4, incluindo direção e filme. Numa de suas clássicas falas, para explicar a um garoto o que significa abater um homem, ele diz: “É tirar tudo o que ele tem e tudo o que ele alguma vez terá”.

Depois do sucesso com “Os Imperdoáveis”, sua vida como cineasta ficou mais fácil e os temas cada vez mais diversos. Quem não se comoveu com “As Ponte de Madison”? Prova de que o romance também pode atrair os durões. “Sobre Meninos e Lobos” e “Menina de Ouro”, estes também aclamados pela crítica, são obras que falam belamente de temas polêmicos como pedofilia e eutanásia.

Talvez o filme que represente o paroxismo do estilo Eastwood de ser seja o recente “Gran Torino”. Curiosamente foi a obra que mais arrecadou em bilheterias por toda sua carreira como ator e diretor. Ali vemos personagens não apenas fisicamente solitários, mas também moralmente solitários, acompanhados apenas por poucas câmeras lhes dando o tom certo de iluminação, com coragem diante das piores decisões que a vida possa nos trazer.

"Às vezes, eu penso em parar [de trabalhar] por um tempo, mas daí aparece aquele roteiro ótimo...", disse recentemente no lançamento de seu longa “Além da Vida”. Que a vida permita, que os roteiros continuem aparecendo e Clint possa nos dar mais uma década com seus filmes e reflexões. Não há dúvida que ele é um dos maiores que já existiu.

Não sei se foi de propósito, mas tenho uma teoria sobre o Homem sem Nome. Talvez o personagem fosse sem nome, para que nós, ao assistir, pudéssemos colocar os nossos.

Artigo publicado originalmente no Jornal Abcdmaior

2 comentários:

  1. Não gosto dos filmes dele como ator. Mas os últimos que ele dirigiu, especialmente "A Troca", são maravilhosos.

    Prometo que vou tentar ver os outros.

    Adorei o texto.

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  2. Huahauhauahuahuah, belo texto rapaz! Belo texto... Final pretencioso... Admiro os trabalhos dele como diretor, não vi muitos como ator. A pouco tempo assisti "Os Imperdoáveis", devo admitir que é um bom filme mas não meu estilo, se falando e faroeste preferi o último dos irmãos Coen. E não assisti Gran Torino, me arrependo disso. Ainda farei isso. E "Sobre Meninos e Lobos" é simplesmente genial. Tal qual Anthony Hopkins ter atuado em "Silêncio dos Inocentes", bastava este filme para ele ser um dos melhores da atualidade...

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