segunda-feira, 2 de maio de 2011

Quando a dor é muito forte

E se as coisas fossem diferentes? Se eu não tivesse agido daquela forma? Na vida, as piores dores originam-se de fatos inesperados e não há pedido de desculpas que possa aliviar isso

Perder alguém na morte é uma das piores dores que alguém pode ter na vida. Some isto o fato de este alguém ser um filho. Pior, uma criança de 4 anos, com a vida inteira pela frente. Não bastasse, tudo isso num acidente, onde não há tempo para se arrepender ou se despedir. Como lidar com essa dor? Como ficam os pais nesta história? Como fica o casamento deles?

Nos cinemas a partir desta sexta, o filme Reencontrando a Felicidade(Rabbit Hole, EUA, 2010) narra uma história como essa, oito meses depois do ocorrido. Becca(Nicole Kidman) e Howie(Aaron Eckhart) vivem um impasse, não conseguem seguir adiante com suas vidas, como se cada dia fosse o dia seguinte ao acidente. E a cada dia, apesar de ainda estarem próximos fisicamente, um enorme distanciamento emocional se abre entre eles.

A história do filme é inspirada na peça homônima de David Lindsay-Abaire, que se destaca por mostrar essa tristeza onde ela está mais presente e cruel, onde só quem a sente pode enxergar. O diretor John Cameron Mitchell, acostumado com as questões da intimidade, de forma brilhante nos coloca rapidamente dentro deste universo, com cenas sutis, poucas palavras, sorrisos e olhares, que deixam de ser o que são porque carregam lembranças de um tempo que não existe mais. Estranhamente, a textura triste do filme não nos afasta, apenas gera compaixão, justamente por saber que todos nós lidamos com a tristeza de formas e tamanhos diferentes. Empatia.

O sentimento de culpa está nitidamente nas costas dos atores em cada cena, mas não há culpados. Nestas horas há os que buscam em Deus um consolo para explicar o ocorrido, assim como também outros o culpam por isso. Numa das mais belas cenas do filme, durante um encontro com um grupo de casais com o mesmo problema, Becca desabafa impetuosamente contra um pai que diz que Deus havia transformado sua filha num anjo. Paradoxo.

Nicole Kidman, que parece ter superado a maldição de atriz que vence o Oscar e se apaga, se mostra afeiçoada aos papéis de infelicidade, convencendo tacitamente o público que a assiste de que a dor não é fácil. Atuação está, aliás, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar deste ano. Merecido.

Lidar com a dor, sozinho, tem suas vantagens. Contudo, em casal, é preciso lidar com a dor do outro e cada pessoa tem maneiras diferentes de enfrentar o mesmo problema. Enquanto Becca não suporta as lembranças, Howie precisa delas pare se reconfortar. Essas diferentes formas de lidar com a situação pode destruir um ao outro mutuamente. “As coisas não são mais legais entre nós”, desabafa o marido, incapaz de seguir adiante. Muitos casais se separam após viver tal apocalipse. Sinal de falta de amor? Ninguém pode ser julgado. Esse é preço de colocar nossa felicidade em cima de outra pessoa. Melhor não amar? Seria sofrer por antecipação.

A mensagem que o filme traz é de que talvez não exista uma formula para lidar com a dor. No entanto, é inegável que temos que enfrenta-la até as últimas consequências. Na cena inicial, uma vizinha elogia o belo jardim de Becca e a convida para um jantar. Incapaz de se relacionar com outras pessoas por causa de sua dor, ela declina o convite. Neste instante, quando ela olha para baixo, vê que a vizinha pisou sem querer na rosa que tanto elogiou, matando-a. Foi sem querer, e ela pede desculpas por isso. A cena resume tudo.

E se as coisas fossem diferentes? Se eu não tivesse agido daquela forma? Na vida, as piores dores originam-se de fatos inesperados e não há pedido de desculpas que possa aliviar isso. Contudo, se formos fortes, algo inesperado também pode mudar tudo outra vez, para o bem.

Avaliação: Bom

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=nypzdbob3sk

Um comentário:

  1. O filme parece ser muito triste. Não sei se seria uma boa ideia assisti-lo...

    Mas a história parece ser bonita mesmo

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