
Qual a linha demarcatória que distingue a cópia do original? Alguns diriam que originalidade remete ao nascimento de algo, mas até nós, mesmo quando nascemos não passamos de uma mera cópia do DNA de nossos antepassados. A originalidade está nos olhos de quem a vê, e a linha entre o autêntico e o falso é tênue demais para afirmarmos que exista.
O mais novo filme do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, Cópia Fiel(Copie Conforme, 2010, França, Irã, Itália) discute este mundo, por acaso nosso mundo, a partir da arte.
Quem conhece outros títulos do diretor sabe que ele cultiva um estilo original de contar histórias sem se preocupar com a forma narrativa. Neles nada acontece, não há conflitos para serem resolvidos, momentos de adrenalina, nem algo para terminar. Assistimos a obras praticamente documentais, pedaços da realidade encontrados em algum lugar deste mundo. Seus filmes marcam o incansável desejo de ele próprio tentar não ser uma cópia de si mesmo.
James Miller(William Shimell) é um filósofo inglês que vai a Itália para falar do lançamento de seu livro, homônimo, que discute a relação entre a cópia e o original, argumentando a importância da primeira para atestar o valor da segunda. Durante a palestra, chega Elle(Juliete Binoche, em excelente atuação), dona de um museu de obras de artes, muitas delas cópias, que apesar de não gostar do livro, sente-se atraída pelo escritor e deseja conhecê-lo. O enredo se desenvolve com os dois caminhando pela Itália, apreciando a paisagem e dialogando despretensiosamente como desconhecidos intimamente relacionados.
A conversa entre eles é construída ao acaso, como se fossem despreparados um para o outro, sempre interrompidos por ligações que os puxam para realidade. Em dado momento, depois de visitar um local onde as pessoas costumam ir para casar e jurar eternidade, uma mulher os vê e pensa que também são um casal. Nenhum deles se importa em corrigir a situação e passam então a reproduzir o que seria a cópia de um casamento de verdade. Neste instante, um telespectador desatento ou que não possui boa memória pode se confundir. Por escolherem serem cópias de si mesmos ambos formam um casal que foi doce no inicio e amargo após alguns anos de relacionamento. Começa um jogo de verdades e mentiras que não podemos distinguir, misturados em meio ao passado de cada um. Ali podemos perceber que o casamento seria nada mais do que a cópia da felicidade e a originalidade da dor. Somos felizes como todos e infelizes como ninguém.
Numa cena marcante, dentro dum restaurante, o casal inicia uma briga. E como em toda briga a coisa começa por algo banal, no caso, um vinho mal servido, que culmina nas mais duras palavras, porque sempre alguém precisa ter razão. De repente tudo fica tão complexo como se um dos dois não estivesse no mesmo tempo do outro, com as mesmas expectativas.
Durante o filme eles passam por uma série de casais de diversas idades. Jovens recém-casados, não necessariamente felizes e idosos não necessariamente infelizes. Qual a receita? Simplicidade. Não seria mais fácil se tudo fosse simples? Não seria melhor viver sem se importar se existe diferença entre o original e a cópia? Somente os idiotas complicam a vida. Somos cópias autênticas de nós mesmos, a vida nos transforma cada dia sem nos deixar perder a essência. Às vezes uma boa cópia fiel é melhor do que o original. As cópias, quem as escolhe, somos nós.
Um filme que merece ser copiado, um diretor que precisa ser imitado e uma mensagem tão original que só pode ser uma cópia fiel de algum momento da nossa bela vida humana.
Avaliação: Ótimo
Maravilhoso o texto, estou com muita vontade de ver este filme.
ResponderExcluirAté agora vi todos que indicou...
Parabéns, sou sua fã.
Bjo