quarta-feira, 18 de maio de 2011

O encontro dos deuses

Hoje as coisas estão mais calmas, mas a nem por isso menos interessantes

Para o público, certamente que o Oscar é a maior festa da indústria do cinema. Já para seus artistas e realizadores, o Festival de Cannes é o maior afago do cinema enquanto arte. Ele, que ultimamente acontece em meados de maio, nunca tirou seu pé da política, apesar de se pretender diferente.

Seu irmão mais velho, o Festival de Veneza escandalizou por seu envolvimento com os governos nazista e fascista da Alemanha e Itália no começo da década de trinta. Até então ostentava o maior status. Desta maneira, tornou-se necessário criar uma alternativa, isenta de qualquer influência, livre para expressar a liberdade e a arte. A ideia viria à realidade na cidade de Cannes, França, em 1939, não fosse o estouro da Segunda Guerra. Foi somente em 1946, após a guerra, que o festival reiniciou suas atividades, cambaleando, com problemas financeiros, até se firmar na década de 50. Antes disso, Cannes fora rotulado de festival de indecisos, quando premiava mais de três filmes na mesma categoria, chegando, certa vez, a onze.

Consolidado, não tardou, e as estrelas do cinema passaram a frequentar o festival, sem deixar que o lado comercial sobrepujasse a veia artística. Brigitte Bardot, que ironia, conheceu o mundo lá, até então desconhecida. Fellini e Visconti também passaram seus filmes neste festival, estes sim adequados para festa.

Em 1968, dentro do movimento cultural histórico liderado por jovens na França que mudou a cultura mundial, inclusive no Brasil, Jean-Luc Godard, François Truffat, Louis Malle, Roman Polanski e Claude Leloch assaltaram o festival encerrando todas as apresentações. Engraçado, mas eles viriam depois a exibir seus filmes e protagonizar o festival, para depois se consagrar como lendas do cinema. Pois é, problemas necessários.

Hoje as coisas estão mais calmas, mas a nem por isso menos interessantes. Para o festival deste ano temos a volta de Terrence Malick, exibindo o filme “A Árvore da Vida”, com produção e atuação de Brad Pitt. Avesso aos holofotes, Malick fez poucos filmes, praticamente um por década. Contudo, todos eles são considerados obras-primas, sendo o mais conhecido “Além da Linha Vermelha”, indicado a 9 Oscars. Este ano não foi diferente, e seu filme exibido em Cannes deixou a plateia de pé. Os mais de três mil jornalistas, sedentos para trocar algumas palavras com ele tiveram que se contentar com Pitt. Incrível, mas sua beleza não foi suficiente para conter a frustração.

Além dele, a programação deste ano já exibiu Woody Allen, Gus Van Sant e Maïwenn Le Besco, todos eles muito elogiados.

As categorias de premiação incluem a "Palma de Ouro", prêmio máximo, "O Grande Prêmio", que expressa maior originalidade, "Intepretação Masculina" e "Feminina", "Cenário", "Júri" e "Direção". O Festival começou dia 11 de Maio e se estende até o próximo dia 22, para então divulgar os vencedores. Se bem que, com o perdão do clichê, estar ali já é um prêmio.

Outra característica do festival é o jurí, composto por alguma figura importante do cinema, este ano, Roberto De Niro, considerado por seus pares, o melhor ator vivo da atualidade.

Infelizmente muitos destes filmes não chegarão aos cinemas brasileiros, quando sim, somente em algumas cidades que exibem temas alternativos. Uma pena, pois a qualidade é indiscustível. Podem chocar, mas no quesito artístico sempre mantém seu alto nível. A seleção é muito rigorosa. Caso venham, vai ter que esperar, com exceção, claro, de Woody Allen e Malick. O talento destes cineastas transcende qualquer barreira comercial ou artística.

Temos um brasileiro por sinal: o filme dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, "Trabalho Cansa", exibido no segundo dia. A julgar pelas críticas, dificilmente ganhará algum prêmio. Parece que Malick é mesmo o favorito.

É belíssimo ver a que ponto a criatividade humana pode chegar, através do cinema, essa forma única de contar a vida. Num mundo com tanta informação e pouco conteúdo, tornam-se cada vez mais fundamentais lugares como estes, em que as materializações da arte se encontrem, se misturem e se completem.

2 comentários:

  1. Só foi eu escrever que as coisas estavam "mais calmas" que o Lars Von Trier enmendou uma de nazista no festival.

    Imprevisível...

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  2. Como dissemos, Malick levou o prêmio...

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