terça-feira, 31 de maio de 2011

Recomeçando do começo

A novidade em Primeira Classe é que as histórias não necessariamente precisam respeitar seus cânones.

Que a moda em Hollywood é contar a origem das histórias que todo mundo conhece o final não é novidade já há algum tempo. O problema é que após esgotar o lançamento de suas principais franquias, para não perder o ensejo, o jeito que estúdios encontraram para sanar a óbice foi recontar a própria origem, desta vez, porém, de uma forma que ninguém a conhece.

Grande lançamento da semana, menos badalado do que outros do gênero, mas ainda assim grande aposta, X-Men: Primeira Classe(X-Men First Class, 2011, EUA) inaugura uma nova fase das adaptações. O longa conta a história do Professor X, Charles Xavier, e Magneto, Erik Lehnsherr, antes de serem inimigos, quando ambos queriam salvar o mundo em conjunto. Passado no contexto do Pós-Guerra, por volta do ano de 1962, no auge da Guerra Fria com a crise dos mísseis em Cuba, tudo acontece no território em que os EUA e a URSS duelaram de todas as maneiras, inclusive utilizando seus mutantes.

Nem pense em revisitar os quadrinhos. A história contada aqui é de própria autoria do produtor Bryan Singer, que acha a sua melhor do que a original. Portanto, a novidade em Primeira Classe é que as histórias não necessariamente precisam respeitar seus cânones. Comercialmente, a ideia faz sentido, já que este universo deixou de ser habituado predominantemente por fãs de quadrinhos, dando lugar a um público que conhece os heróis através de outros filmes, de outros desenhos, de outros contos.

No entanto, apesar da sacada, a estratégia é arriscada. Recontar a origem significa que o fim não necessariamente deixará de ser recontado. Em se tratando de uma das melhores histórias de quadrinhos, a responsabilidade de fazer outra é no mínimo enorme, em outras palavras, as chances de fracassar aumentam tacitamente. É lançar a sorte ao público.

Grande parte do elenco é composto por jovens, com exceção do ator Kevin Bacon e Hugh Jackman, eterno Wolverine, que faz uma ponta no filme. Apesar de jovem, o elenco é conhecido de outros filmes e séries, todos muito competentes.

Apesar de diferente, o novo enredo contado por Singer muda aspectos pontuais como datas, diálogos e reviravoltas, tal como o professor Xavier ficou na cadeira de rodas. Mas, por outro lado, a essência continua a mesma, sem maiores mudanças nas estruturas. Já que vai mudar, por que não mergulhar de vez em outros mundos? Perde-se a oportunidade de sair do velho maniqueísmo, ponto fraco em X-Men desde os tempos do original. Ou seja, Xavier continua sendo o cara que quer usar os mutantes bonzinhos para salvar a humanidade e Magneto o rancoroso vingativo que não acredita na raça humana. Sabemos que o mundo não é assim, é mais complexo do que isto, e seria ótimo ver nossos heróis enfrentando problemas de verdade.

Até que ponto devem ser respeitadas as histórias? São elas que transformam nossos heróis ou são eles que criam as histórias? A julgar pela cultura neoliberal predominante em nossos tempos, a segunda hipótese demorou para chegar ao cinema dos heróis. Resta saber como o público vai engolir.

A verdade é que ninguém mais aguenta estes recomeços. Até o final do próximo ano teremos outros deles. Fazer o quê? Com pouca criatividade hoje em dia, o jeito é jogar água no chop pra ele durar mais.

Avaliação: Regular

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=_EHcyHFlc6w

sábado, 28 de maio de 2011

Sugestão: Um clássico entre os clássicos

Filme: Além da Linha Vermelha

Direção: Terrence Malick

Ano: 1998

Gênero: Guerra

Elenco: Sean Penn, Geoge Clooney, Nick Nolte, John Travolta

Trilha: Hans Zimmer

Prêmios: Indicado a 9 Oscars e vencedor do Urso de Ouro de Berlim

Bilheteria Total: $81,000,000


Antes de lançar o novo visual do site, já iniciaremos algumas novidades que faram parte da nossa programação semanal e mensal. Dentre elas, uma vez por semana daremos uma sugestão, um filme que deve ser alugado, emprestado ou até mesmo comprado. Ou quem sabe, jogar fora.

Para começar, inspirado no Festival de Cannes deste ano, a primeira sugestão é o clássico Além da Linha Vermelha(The Thin Red Line, 1998, EUA) do diretor Terrence Malick, tão prolixo, que em quatro décadas realizou cinco filmes. Com que ele não existe meio termo, se for para fazer, tem que ser direito, tem que ser marcante, tem que ser eterno. Formado em filosofia, seu talento como cineasta casou dois estilos de pensamentos que capaz de criar formas de arte impensáveis. É como se Nietzsche fosse um cineasta. Imagine o que teríamos nas telas?

Difícil classificar o gênero de suas obras. As histórias e a forma como as conta transcende a qualquer classificação. O mais provavél seria "Guerra", já que temos um enredo que se passa durante a Segunda Guerra, no meio do confronto entre americanos e japoneses, na linha de defesa da Batalha de Guadalcanal, baseado no livro de James Jones. Mas acredite, não é suficiente.

No geral o que vemos sobre guerras nas telas é um desserviço de entorpecimento diante da banalidade de vidas humanas desfalecendo a cada disparo. Terrence faz diferente. Para nos lembrar que ali existe uma vida, e por trás dela todo um mundo particular e único, cada ator em cena é conhecido, muitos deles famosos. É muito provável que se em toda sua vida você assistiu há apenas dez filmes, se assistir este, vai reconhecer no mínimo uns três ou quatro rostos. Não posso recitar todos, mas vai alguns nomes: Sean Penn, Adrien Brody, Jim Caviezel, Ben Chaplin, John Cusack, Woody Harrelson, Elias Koteas, Jared Leto, Dash Mihok, Tim Blake Nelson, Nick Nolte, John C. Reilly, Larry Romano, John Savage, John Travolta, Arie Verveen e George Clooney. Caso não se lembre de alguns deles, copie-os e cole no buscador de imagens do Google, tenho certeza que vai lembrar.

As gravações originais têm ao todo mais de cinco horas de gravação. É claro que após o trabalho de edição, que durou meses, o filme ficou muito menor, totalizando quase três horas. Azar o nosso, porque ainda poderíamos ver cenas com Martin Sheen, Viggo Mortensen e Mickey Rourke. Quem assina a trilha sonora é Hans Zimmer e John Powell.

Você deve estar pensando, “Meu Deus, quanto gastaram para fazer este filme com tantas estrelas?”. Pois é, não foi muito. Aqui, o que paga o filme é poder do nome de Malick. Diz a lenda que quando Sean Penn se encontrou com o diretor, apenas disse: “Pague-me um dólar e fale o que preciso fazer”. Após vinte anos sem filmar, quando os rumores de Malick faria outro filme vazaram, diversos atores foram procurá-lo, desejando fazer parte do filme. Ele literalmente teve que escolher quem o faria. Nomes como Jonnhy Depp, Tom Cruise, Edward Norton e Kevin Costner tentaram, mas não entraram.

A reputação do diretor e sua forma de trabalhar fizeram dele um mito. Mesmo após ter terminado as filmagens, alguns atores pediram para continuar o restante do trabalho das gravações apenas para vê-lo trabalhar.

Sua mente criativa e seu estilo filosófico aparecem nitidamente em seus títulos. Podemos ver diversas tomadas improváveis captando cenas belíssimas sem deixar de focar no tema principal. A forma de construir e apresentar seus personagens são imprevisíveis. Não há uma linha que conduz a narrativa. As coisas estão acontecendo e a câmara parece que tem apenas a função de engradá-las. Agora faça outra pesquisa: digite no google procurando pela sinopse do filme. Tenho certeza que terá dificuldades de conseguir alguma que resuma corretamente a história. Não quero me arriscar, apenas posso dizer que o filme é um recorte da guerra que aconteceu no pacífico durante a Segunda Guerra, dentro de um território que é o paraíso.

Ao ver o filme e todas àquelas desgraças, a sensação de raiva não recaí sobre o homem e sim sobre a vida. Por que ela é tão cruel? Já que ela não pode ser somente boa, porque não pode ser somente ruim? O que torna as coisas, por vezes, insuportáveis é justamente o fato de saber que poderiam ser melhores, de ter sentido ou vivido momentos melhores. Eis a crueldade que aperta o coração.

A guerra não enobrece o homem, não há lição para ser tirada ou amadurecimento. Há muita mentira e hipocrisia para ser contada. Antes erámos todos irmãos, agora lutamos uns contra os outros, nos boicotando mutuamente. Aonde foi que nos perdemos? Talvez os homens tenham uma enorme alma em que todos fazem parte. Não pense que por ser mais bondoso vai sofrer menos.

Recomendação: Compre

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Só se beber

Tudo que poderia ser repetido foi repetido, com o perdão da repetição.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Se Beber não Case 2(The Hangover Part II, 2011, EUA) tem tudo para ser também uma das maiores decepções. Na história, Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms), Alan (Zach Galifianakis) e Doug (Justin Bartha) vão para Las Vegas curtir uma festa de despedida de solteiro, mas se metem numa série de problemas que travam o casamento 40 horas antes do início da cerimônia. Na manhã seguinte, todos estão de ressaca e ninguém se lembra do que aconteceu na noite anterior. Agora, para se livrar dos problemas, os três terão que reconstituir os passos da noite anterior e descobrir em que momento as coisas começaram a desandar.

Não, espere um pouco, desculpe, estou falando da sinopse do primeiro. Mas tudo bem, para saber qual é a do segundo, basta apenas trocar a palavra Las Vegas por Bangcoc.

Inexplicavelmente, parece que a criatividade do diretor Todd Philips se esgotou, e o que ele fez foi apenas manter as mesmas piadas, só que num tom mais exagerado. Daí o porquê de ser em Bangcoc. Os personagens são colocados nas mesmas situações, têm as mesmas reações e fazem as mesmas piadas. O problema de tudo isso é que a piada perde a graça se for contada duas vezes seguidas, seja ela contada num filme ou numa roda de amigos. Tudo que poderia ser repetido foi repetido, com o perdão da repetição.

Uma pena. Depois de "Se Beber Não Case", o diretor também fez a excelente comédia “Um Parto de Viagem”. Seu nome virou símbolo do rejuvenescimento das comédias americanas para adultos. Ninguém aguenta mais ver os filmes de Adam Sandler com as mesmas histórias. Contudo, a julgar por está sequência, voltamos a estaca zero.

Durante a gravação, o elenco criou polêmica quando soube que Mel Gibson seria convidado para fazer uma participação especial no filme. Grande parte da equipe ameaçou abandonar as gravações caso isso se concretizasse. Diante do embaraço, rapidamente colocaram Nick Cassavetes no papel. Uma pena novamente. Vida pessoal a parte, a verdade é que o talento de Gibson como ator é inquestionável, e com certeza seria muito melhor vê-lo no lugar de Cassavetes.

Entretanto, apesar deste caos todo, façamos justiça: Zach Galifianakis continua roubando a cena, nos proporcionando bons momentos de boas risadas.

Sei que já disse isso duas vezes, mas preciso repetir: uma pena. Um dos poucos filmes em que o título em português é melhor do que o original, infelizmente não faz jus a seu antecessor. Entre repetições, melhor ver novamente o primeiro. Se preferir fazer diferente, só veja se beber.

Avaliação: Ruim

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=xyn6TVnkmVc

Exclusivo: entrevista com Paulo Ricardo da banda RPM

No dia 20, última sexta, a banda RPM fez apresentação do primeiro show da turnê "Elektra" no CredcardHall, em São Paulo. E nós da Capital da Arte aproveitamos para bater um papo com o Paulo Ricardo, vocalista da banda, sobre a volta, os planos e o futuro do Brasil.

Confira abaixo, com exclusividade:

Capital da Arte – Paulo, qual o sentimento de vocês em relação a este retorno? Dá pra comparar com o retorno de 2001?

Paulo Ricardo: Estamos nos sentindo como uma banda em início de carreira, a mesma energia, o mesmo entusiasmo, apenas com mais experiência. A grande diferença de 2001 é que agora temos todo um novo trabalho de estúdio, com 12 músicas inéditas.

Capital da Arte - Como você vê o fenômeno que é a banda. Apesar de um hiato de praticamente 20 anos sem lançar um disco de inéditas, o fãs parecem não se incomodar, todo frenesi permanece intocável, e já no lançamento da primeira música “Dois Olhos Verdes” vocês estão no topo novamente. Qual explicação deste fenômeno?

Paulo Ricardo: Poderia levantar algumas hipóteses mas a verdade é que não sabemos também. Apenas procuramos fazer, sempre, o melhor, e quando não estamos 100% dedicados à banda, preferimos focar em outros projetos. Então o público sabe que, quando estamos de volta, é pra valer.

Capital da Arte – Dá pra perceber pelas 4 músicas disponíveis no site que o estilo está diferente. Houve uma influência de algum trabalho específico? Algumas pessoas da imprensa falaram em “The Killers” e “Muse”, bandas que se destacam no cenário internacional.

Paulo Ricardo: Não diria diferente, mas atualizado. Há muitas bandas hoje com influências dos anos 80, e nós obviamente representamos muito bem esta sonoridade no Brasil. Nossa maior referência foi, realmente, RPM.

Capital da Arte – Eu, particularmente, gostei muito da música “Muito Tudo”, uma letra muito bem escrita, com uma crítica belíssima dos nossos tempos, lembra muito “Alvorada Voraz”. No refrão você fala “que queria mudar o mundo, mas sente que o as vezes o mundo te muda”. Em relação a geração dos anos 80, vocês tentaram mudar o Brasil, mas você sente também que o Brasil mudou vocês?

Paulo Ricardo: Não só o Brasil mas a própria vida. Todos evoluímos, amadurecemos, nos surpreendemos e nos decepcionamos com os acontecimentos. E com o tempo, aprendemos a conviver com nossas limitações e aquela sensação que bate de vez em quando de que, como disse John Lennon, o sonho acabou. Mas o importante é olhar para a frente e continuar produzindo.

Capital da Arte – A juventude se via muito representanda pela banda, as músicas eram como um hino, principalmente “Revoluções por Minuto”, censurada na época, e “Alvorada Voraz”. Hoje, a juventude se sente carente, como disse o profeta Humberto Gessinger, “é uma banda numa propaganda de refrigerantes”. Por que não temos mais pessoas assim? Foi o contexto histórico? A ditadura? O tropicalismo? Milton Nascimento e Chico?

Paulo Ricardo: O contexto histórico, sem dúvida. Mas sempre vão existir grandes artistas e bandas em propaganda de refrigerantes. É só procurar.

Capital da Arte - O que os fãs podem esperar das próximas músicas?

Paulo Ricardo: Canções dançantes, vibrantes, eletrônicas e muito rock moderno, com letras cínicas e crônicas do nosso tempo.

Capital da Arte – Quais serão os planos para os próximos meses? Quando teremos o album de inéditas na integra?

Paulo Ricardo: Estamos em turnê, percorrendo o Brasil todo, lançaremos mais 4 canções em junho e o álbum completo, Elektra, em julho. E dia 20 de agosto estaremos ao vivo no Criança Esperança da Rede Globo.

Capital da Arte – Para encerrar, o que você espera do Brasil para próximos anos? Muita festa e pouco conteúdo?

Paulo Ricardo: Há um crescimento desordenado, falta de infraestrutura e de educação, há vagas mas faltam profissionais qualificados, enfim, o caos de sempre, mas, diferentemente de outros tempos, há um crescimento, que deve ser aproveitado da melhor maneira possível. Sou otimista.

Matéria publicada em parceria com o Jornal da Cidade. Todos direitos reservados.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Projeto Brazucah de Cinema Nacional terá debate

A matéria foi publicada hoje, pela excelente repórter Márcia Mazzei.


O Projeto Cultural de Cinema Nacional está de volta a Jundiaí, com a exibição, hoje, do longa nacional "Apenas o Fim". A sessão começa às 19h10, no campus central do Centro Universitário Padre Anchieta. A entrada é gratuita. Lançado em 2008, o filme conta a história de Antônio, interpretado por Gregório Duvivier, e sua namorada, interpretada por Erika Mader, que discutem sua relação antes de se separar.



Feito por estudantes da PUC-Rio, o longa ganhou prêmios de Melhor Filme do Júri Popular e Menção Honrosa do Júri Oficial no Festival do Rio 2008 e o Prêmio de Melhor Filme do Júri Popular na 32ª Mostra de São Paulo. Também foi exibido em Festivais de Cinema no mundo inteiro.

Como aconteceu na edição passada do projeto, após a exibição do filme, convidados especiais promoverão um debate com a plateia. Desta vez, estarão presentes Ana Claudia Fossen, doutorando em Psicologia pela Universidade de Madrid e a professora Lucia Helena, Doutora em Educação, membro efetivo da academia de letras de Jundiaí.

Origem - O Projeto Cultural de Cinema Nacional da Rede Brazucah chegou em Jundiaí em abril deste ano com o desafio de minimizar o preconceito ainda existente em relação ao cinema nacional. De acordo com Thiago Rodrigues Miota, agente de exibição do projeto, que representa a Brazucah, a qualidade das produções nacionais ainda é questionada, por falta da oportunidade de prestigiar filmes de qualidade.

"Daí a urgência do projeto, que busca divulgar o cinema nacional e formar um público para este cinema", conta Miota. "Apenas o Fim" será exibido gratuitamente, no Anchieta - Campus Anhanguera (Km 55).



por MÁRCIA MAZZEI


Matéria publicada originalmente no Jornal de Jundiaí

Entrevista na Rádio Cidade 23/05


Na última segunda estive novamente na Rádio Cidade para falar do projeto Brazucah e do filme que será exibido hoje, "Apenas o Fim". Desta vez conversei com o Adílson, um cara muito gente boa.

Mais uma vez fui muito bem recebido.

Confiram no vídeo a entrevista de aproximadamente 10 minutos.

Abraço a todos.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mudanças

Conhecido por dirigir dramas trágicos como “Desejo e Reparação” e “Orgulho e Preconceito”, o inglês muda radicalmente de estilo lançado um thriller de ação e suspense.

Os bons diretores se notabilizam por desenvolverem um estilo, como se seus nomes criassem uma marca. Não é comum ver ousadia da parte deles e muito menos dos estúdios em financiá-los caso tomem um caminho diferente do que traçaram anteriormente. Poucos diretores (dá pra contar nos dedos) conseguem dar o passo seguinte e chegar num patamar, digamos, universal.

Por isso, quando isso acontece com algum de diretor de renome, gera curiosidade. Em cartaz no Brasil, o filme Hanna(Hanna, 2011, EUA, Reino Unido, Alemanha) do diretor Joe Wright corre este risco. Conhecido por dirigir dramas trágicos como “Desejo e Reparação” e “Orgulho e Preconceito”, o inglês muda radicalmente de estilo lançando um thriller de ação e suspense.

A história é centrada em Hanna (Saiorse Ronan), uma adolescente de 14 anos, treinada para ser uma assassina profissional. Seu pai(Eric Bana) é um ex-agente da CIA procurado pela agência. Criada por toda sua infância afastada da sociedade, após ser descoberta e capturada, ela foge. No meio da fuga conhece uma família francesa, que tem como maior virtude ser comum. Agora ela vai descobrir um mundo completamente novo.

Neste instante o filme mostra a que veio. Apesar de toda educação e forte disciplina, Hanna é apenas uma adolescente descobrindo a vida. Por mais que os pais preparem seus filhos, são as experiências que os formam. E por mais que os pais queiram que os filhos façam algo ou sejam alguém, no fim são eles que devem decidir, ninguém pode fazer isso por eles. Caso contrário, no futuro, as boas intenções podem virar um pesadelo. Num mundo em que as pessoas são cada vez mais cobradas e exigidas, ter uma vida simples tornou-se o desejo de muitos. E é por isto que Hanna vai lutar, independente do que querem para ela.

Este conflito existencial de Hanna nos mostra que Joe Wright não mudou seu estilo, apenas trocou a forma de contar suas histórias. No fim, o filme é tão trágico quanto os demais, com a diferença que agora possui mais distrações.

Isso prova que ao escolher um filme, não basta ver o título ou ler a sinopse. É preciso conhecer os artistas.

Avaliação: Regular

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=bsUwFdS7Bmg

sábado, 21 de maio de 2011

A volta do RPM

Apesar de tanto tempo, os fãs continuam fiéis. Na sexta, ingressos esgotados.

O rock brasileiro já teve dias melhores. Nos anos 80, era o representante da cultura brasileira, encantando gerações e fazendo revoluções. Protagonista deste cenário, a banda RPM deixou muitos órfãos, e após brigas e separações, estão de volta.

Na última sexta, em São Paulo, a banda fez o primeiro show da turnê "Elektra", mesmo nome do álbum de inéditas lançado aos poucos na internet, através site oficial da banda. Apesar de tanto tempo, os fãs continuam fiéis. Na sexta, ingressos esgotados.

Na abertura, de cara uma música inédita, “Muito Tudo”, com uma letra voraz, criticando nossos tempos de “muita informação e pouco conteúdo”, bem ao verdadeiro estilo RPM. Em seguida, o novo hit “Dois Olhos Verdes”, primeiro lugar em diversas rádios do país, com refrão um tanto pegajoso(na saída, dava pra ouvir as pessoas cantando). Ali já dava pra perceber que a banda se atualizou, cantando ao estilo de bandas da nova geração do rock como “The Killers”, sem também perder sua essência. Agradou a todos, velhos e novos.

A verdade é que o público estava ali para ouvir os clássicos. E na quarta música a banda tocou “Louras Geladas”. Aí a coisa mudou de figura, todos começaram a se mexer e cantar junto com Paulo Ricardo.

Após uma sequência de músicas tidas como “lado B”, a poeira baixou e começaram as românticas. Estranho, parecia que até ali os músicos estavam nervosos, não conseguiam se soltar. Não era o RPM que todos conheciam. Mas, com as românticas, a coisa muda de figura, desta vez no palco, e eles se soltam. O público vai ao delírio, principalmente as mulheres, com “A Cruz e a Espada” e depois “London, London”.

O show fica empolgante, e as músicas agitadas retornam com “Revoluções por Minuto”, seguida de “Alvorada Voraz”, ponto alto da noite. Mas foi mesmo “Rádio Pirata” que fez todos ficaram em pé, pedindo e cantando em uníssono pela revolução. Bons tempos. Para encerrar, não podia faltar, “Olhar 43”.

Com o repertório tradicional esgotado, a banda volta para o bis executando outra música nova, “Crepúsculo” e novamente “Dois Olhos Verdes”. Tudo bem que é música de trabalho, mas uma banda do calibre do RPM não precisava tocar duas vezes a mesma música no mesmo show, a menos que o público pedisse, como nos velhos tempos, o que não foi o caso.

O retorno da banda é muito bem-vindo ao rock nacional, carente de uma voz para representar a juventude. Mesmo após tanto tempo, a banda mantém suas características principais: romantismo político, originalidade e atitude. Em termos técnicos, os músicos estão cada vez melhores, principalmente a guitarra de Deluqui e os teclados de Schiavon. E sim, Paulo Ricardo, beirando os 50, ainda é um galã.

Avaliação: Bom

Revoluções por Décadas

Aos poucos a poeira foi baixando e eles foram voltando, e agora estão de volta

Eles estão de volta, de novo. O maior fenômeno da história do rock nacional com milhões de discos vendidos em tão pouco tempo subiu ao palco na última sexta-feira, 20 de maio, em São Paulo no Credcardhall. E com tudo o que tem de melhor: Paulo Ricardo, Luiz Schiavon, Fernando Deluqui e Paulo P.A Pagni. Incrível, mas mesmo depois de tanto tempo, eles ainda são um fenômeno. Como explicar isso?

Criada em 1983, mas lançada nacionalmente em 1985, a banda RPM(a sigla de Revoluções por Minuto) virou febre em questão de meses, uma espécie de “beatlemania” brasileira. Com músicas eletrizantes, romantisco político e originalidade, o disco "Revoluções por Minuto" é considerado uma obra-prima que faz parte de qualquer antologia da música brasileira. Era a banda do momento, no lugar certo, no país certo. Das onze faixas do disco, oito tocaram exaustivamente nas rádios. Estás incluam “Louras Geladas”, “Olhar 43”, “Revoluções Por Minuto”, “Alvorada Voraz”, “A Cruz e a Espada”, “Juvenília” e “Radio Pirata”.

Para se ter uma ideia do fenômeno, até mesmo músicas que não estavam no álbum, mas que somente eram tocadas no show, como “London London”, viravam hits nas rádios de todo país através de gravações amadoras realizadas durante os shows. Teoricamente a música não existia em lugar nenhum, mas diversas versões eram pedidas sistematicamente em todo país.

Durante a turnê, o megaempresário Manoel Poladian assinou contrato com a banda e contratou ninguém menos que Ney Matogrosso para orientar os quatro jovens. Ney os achava muito tímidos, muito acanhados, sentia que precisavam liberar sua sexualidade. Com isso, a postura em palco mudou radicalmente, um novo disco foi lançado, “Rádio Pirata Ao Vivo”, e o mito estava criado. A partir daí as coisas perderam o rumo. Nas palavras de Paulo Ricardo: "Nosso sonho chegava até ali, não imaginávamos o que viria depois".

Infelizmente o sonho que ninguém sonhou, mas que se realizou em tão pouco tempo acabou também da mesma forma que veio, em pouco tempo. Sem saber lidar com tanto sucesso, o ego de cada integrante se inflou e as brigas começaram, principalmente entre Paulo Ricardo e Luiz Schiavon. Em certo episódio, pouco antes de um show no estádio do Macaracãnazinho, a banda cansou de esperar por Paulo e foi sem ele. Claro que ele chegou depois, mas o clima azedou. Não foi isso que detonou o fim, mas era certamente o estopim.

Em 1987 a banda anunciou a primeira separação, que também não durou muito. Retornaram meses depois com o disco “Quatro Coiotes”, que vendeu na época, tanto quanto o rei Roberto Carlos, mas que não era nem sombra do sucesso anterior. As brigas voltaram, e a banda acabou novamente.

Apesar de outros discos, a verdade é que a banda teve um hiato de praticamente 15 anos, e retornou apenas em 2001 gravando a releitura “Vida Real”, lançada para o programa "Big Brother" da Globo, espaço este, aliás, que nunca fechou as portas para banda, dado o carinho de algumas pessoas da emissora, como Fausto Silva. A saudade bate, a banda retorna e lança um disco ao vivo pela MTV, fazendo uma releitura das músicas anteriores, com poucas inéditas. Em termos técnicos, o melhor disco da banda, qualidade indiscutível.

Impressionante, mas mesmo após tanto tempo, o sucesso também voltou, os velhos fãs ainda os amavam e novos embarcaram. Os planos foram refeitos, um novo disco estava para sair. Porém, no ano seguinte, a banda anuncia a separação. Não há esclarecimento, mas rumores diziam que o motivo foi que Paulo Ricardo havia registrado os direitos da banda em seu nome. O fato é que existiu uma briga judicial, e no site oficial da banda por algum tempo havia uma mensagem de Schiavon tentando explicar o ocorrido.

Em 2008 um novo retorno é esboçado com o lançamento de um "Box" de todos os discos, comemorando os 25 anos da banda, incluindo, claro, apresentação no Faustão.

Aos poucos a poeira foi baixando e eles foram voltando, e agora estão de volta. Segundo Paulo Ricardo, o disco novo está pronto, mas apenas quatro músicas estão disponíveis no site(www.rpm.art.br) para download gratuito. O primeiro single chama-se “Dois Olhos Verdes”, que mesmo lançado há apenas uma semana, já figura em primeiro por diversas rádios. As influencias são claras, de bandas da nova geração como “Muse” e “The Killers”, provando que sabem se reinventar, diferente de outros. Agradou a todos, velhos e novos.

Espera-se que agora, após quase 30 anos, a banda termine seu trabalho. Dado o histórico, todos sabem que tudo pode acontecer, independente do dinheiro ou sucesso envolvido. Talvez essa seja a explicação do frenesi interminável após cada retorno: todo mundo quer aproveitar, pois nunca se sabe se será a última chance.

A primeira música do show, “Muito Tudo”, do repertório de inéditas, tem um refrão interessante: “Eu queria mudar o mundo, mas às vezes sinto que o mundo, me muda”. Será que estes quatro jovens que queriam mudar mundo, ou pelo menos o Brasil, foram mudados por ele? Esperamos que sim, para melhor, e que as revoluções voltem a ser por minuto, e não por décadas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O cinema vai à escola

Este artigo foi publicado no Jornal de Jundiaí a respeito do evento realizado no dia 28/04. Quem escreveu foi o professor José Renato Polli, uma pessoa que tenho profunda admiração.


No último dia 28, participei de um debate sobre o filme “As melhores coisas do mundo”, no anfiteatro do Centro Universitário Padre Anchieta. O evento faz parte de uma parceria entre a universidade e a produtora cultural Brazucah, que tem como agente de exibição o aluno do curso de economia, Thiago Rodrigues Miota. Uma iniciativa importante, já que a instituição disponibiliza o espaço para a comunidade, favorece a aprendizagem a partir da cultura e congrega pessoas em torno da discussão de ideias. Thiago conduziu muito bem o trabalho, articulando alunos de vários cursos, professores e responsáveis, numa iniciativa inédita.

Há projetos em outras instituições de ensino de São Paulo, que procuram providenciar situações de conhecimento a partir de debates sobre obras cinematográficas. É o caso da atividade desenvolvida por professores do Centro Universitário Assunção, que atualmente promovem o ciclo “Cinema e revolução”, uma proposta temática no campo da história, que tem como objetivo discutir a revolução francesa a partir de filmes consagrados que tratam sobre o assunto.

No caso de Jundiaí, o propósito é promover a exibição de filmes nacionais no espaço da universidade, congregando alunos, professores e qualquer pessoa interessada. O primeiro lance desse projeto foi o filme de Laís Bodanzky, com roteiro de Luiz Bolognezi. A história se baseia na série de livros “Mano”, de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto e já recebeu alguns prêmios. Questões do mundo adolescente, como namoro, conflitos com o mundo adulto, separação dos pais, bullying, homossexualismo, sexualidade, suicídio, enfim, as angústias e temores dessa fase da vida. Um aspecto bacana também é o destaque dado à influência dos professores críticos e sonhadores na vida dos alunos.

De uma beleza poética indiscutível, a trama é costurada pelos encantos das habilidades dos dois irmãos (Hermano e Pedro), vividos por Francisco Miguez e Fiuk, respectivamente. Um escreve poemas em um blog e outro sonha tocar a música “something” para alguém especial, que ele nem percebe quem é inicialmente. O filme fica ainda mais bonito com a excelente atuação de Denise Fraga. Outro detalhe importante é que os atores adolescentes são iniciantes no cinema.

Ao longo do nosso debate, questões relativas aos temas da ética, do sentido da vida (sua beleza ou não), da convivência no ambiente escolar, foram propostas por vários alunos. Durante toda a exibição, percebi o grande interesse da platéia e como, afinal, uma atividade tão simples, pode proporcionar situações de grande riqueza de aprendizagem.

José Renato Polli. Doutor em Educação (FEUSP). Professor universitário e Diretor do Colégio Paulo Freire. Blog: http://renatopolli.zip.net.

Artigo publicado originalmente no Jornal de Jundiaí.

O encontro dos deuses

Hoje as coisas estão mais calmas, mas a nem por isso menos interessantes

Para o público, certamente que o Oscar é a maior festa da indústria do cinema. Já para seus artistas e realizadores, o Festival de Cannes é o maior afago do cinema enquanto arte. Ele, que ultimamente acontece em meados de maio, nunca tirou seu pé da política, apesar de se pretender diferente.

Seu irmão mais velho, o Festival de Veneza escandalizou por seu envolvimento com os governos nazista e fascista da Alemanha e Itália no começo da década de trinta. Até então ostentava o maior status. Desta maneira, tornou-se necessário criar uma alternativa, isenta de qualquer influência, livre para expressar a liberdade e a arte. A ideia viria à realidade na cidade de Cannes, França, em 1939, não fosse o estouro da Segunda Guerra. Foi somente em 1946, após a guerra, que o festival reiniciou suas atividades, cambaleando, com problemas financeiros, até se firmar na década de 50. Antes disso, Cannes fora rotulado de festival de indecisos, quando premiava mais de três filmes na mesma categoria, chegando, certa vez, a onze.

Consolidado, não tardou, e as estrelas do cinema passaram a frequentar o festival, sem deixar que o lado comercial sobrepujasse a veia artística. Brigitte Bardot, que ironia, conheceu o mundo lá, até então desconhecida. Fellini e Visconti também passaram seus filmes neste festival, estes sim adequados para festa.

Em 1968, dentro do movimento cultural histórico liderado por jovens na França que mudou a cultura mundial, inclusive no Brasil, Jean-Luc Godard, François Truffat, Louis Malle, Roman Polanski e Claude Leloch assaltaram o festival encerrando todas as apresentações. Engraçado, mas eles viriam depois a exibir seus filmes e protagonizar o festival, para depois se consagrar como lendas do cinema. Pois é, problemas necessários.

Hoje as coisas estão mais calmas, mas a nem por isso menos interessantes. Para o festival deste ano temos a volta de Terrence Malick, exibindo o filme “A Árvore da Vida”, com produção e atuação de Brad Pitt. Avesso aos holofotes, Malick fez poucos filmes, praticamente um por década. Contudo, todos eles são considerados obras-primas, sendo o mais conhecido “Além da Linha Vermelha”, indicado a 9 Oscars. Este ano não foi diferente, e seu filme exibido em Cannes deixou a plateia de pé. Os mais de três mil jornalistas, sedentos para trocar algumas palavras com ele tiveram que se contentar com Pitt. Incrível, mas sua beleza não foi suficiente para conter a frustração.

Além dele, a programação deste ano já exibiu Woody Allen, Gus Van Sant e Maïwenn Le Besco, todos eles muito elogiados.

As categorias de premiação incluem a "Palma de Ouro", prêmio máximo, "O Grande Prêmio", que expressa maior originalidade, "Intepretação Masculina" e "Feminina", "Cenário", "Júri" e "Direção". O Festival começou dia 11 de Maio e se estende até o próximo dia 22, para então divulgar os vencedores. Se bem que, com o perdão do clichê, estar ali já é um prêmio.

Outra característica do festival é o jurí, composto por alguma figura importante do cinema, este ano, Roberto De Niro, considerado por seus pares, o melhor ator vivo da atualidade.

Infelizmente muitos destes filmes não chegarão aos cinemas brasileiros, quando sim, somente em algumas cidades que exibem temas alternativos. Uma pena, pois a qualidade é indiscustível. Podem chocar, mas no quesito artístico sempre mantém seu alto nível. A seleção é muito rigorosa. Caso venham, vai ter que esperar, com exceção, claro, de Woody Allen e Malick. O talento destes cineastas transcende qualquer barreira comercial ou artística.

Temos um brasileiro por sinal: o filme dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra, "Trabalho Cansa", exibido no segundo dia. A julgar pelas críticas, dificilmente ganhará algum prêmio. Parece que Malick é mesmo o favorito.

É belíssimo ver a que ponto a criatividade humana pode chegar, através do cinema, essa forma única de contar a vida. Num mundo com tanta informação e pouco conteúdo, tornam-se cada vez mais fundamentais lugares como estes, em que as materializações da arte se encontrem, se misturem e se completem.

A lei e os defensores dela

A justiça não é sobre a verdade, mas sobre quem pode provar sua inocência.

Quando a lei sucumbe ao poderio de um bom advogado é sinal de que há algo errado com a justiça. Ganha quem pode pagar, perde quem é pobre. Se antes a justiça tardava, hoje ela nem chega. A frustação de ver a impunidade é frequente e muitos se perguntam se ainda há justiça.

Muito provavelmente por causa da quantidade absurda de advogados em seu país (por lá, aparentemente, as coisas costumam se resolver, mesmo que seja preciso a pena de morte em alguns estados), os americanos adoram histórias envolvendo conspirações no tribunal. Existe uma gama de livros e filmes sobre o tema. O mais recente deles, o filme, também baseado num livro, O Poder e a Lei(The Lincoln Lawyer, 2011, Estados Unidos) conta a história do advogado Mick Haller, interpretado pelo charmoso Matthew McConaughey. Mais negociador do que defensor, Haller conhece como poucos o funcionamento do sistema. Para ele, não basta saber a lei para ser um bom advogado, é preciso manipular as pessoas, e isso não exclui seus próprios clientes.

Porém, as coisas mudam quando ele consegue o caso de um cliente milionário, jovem e playboy. Excitado com ideia de ganhar dinheiro fácil, Haller dá as cartas mandando em gente que não costuma ser mandada. Mas, quando ele percebe que as cartas estão marcadas e que talvez ele seja o manipulado, é tarde. Agora ele está dentro de um jogo em que é preciso defender seu próprio inimigo.

O Brasil é o terceiro maior país do mundo em números de advogados por habitante, cerca de um para 322, segundo a OAB. Antigamente símbolo de status, a profissão virou sinônimo de parasitismo, sem compromisso com justiça, antes com o dinheiro. Por vezes injusto, tal pensamento se renova a cada escândalo.

A ideia que o filme explora vai além. Se existe um principio de inocência em que todos têm a oportunidade de defesa, como saber se seu cliente não é culpado? Não basta ter suas próprias convicções. Mesmo que seja inocente, se os fatos provam o contrário, não há o que fazer. A justiça não é sobre a verdade, mas sobre quem pode provar sua inocência.

Além de McConaughey, o longa conta com um elenco muito conhecido de atores que não são astros, mas que frequentam as telas exclusivamente por seu talento, casos como de William H. Macy e Bob Gunton. Entretanto, apesar do bom argumento, a trama é por vezes fantasiosa e os entraves, muito bem criados, são resolvidos de forma superficial, algo que compromete.

Há pessoas que acreditam que o mundo teria menos problemas se houvesse menos advogados. Talvez, se as pessoas conhecessem melhor as leis. Ou, se as leis fossem outras.

Avaliação: Regular

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=PLDvYjQVCx0

domingo, 15 de maio de 2011

Bom para quem gosta

O que o público quer ver são os carros e muita ação. Quanto a isso, não há do que reclamar.

No geral as pessoas costumam ir ao cinema para se divertir ou para refletir sobre algo. É claro que se puderem encontrar as duas coisas ao mesmo tempo, melhor, mas isso é muito raro hoje em dia. O que os estúdios têm feito é criar filmes para um público específico, mesmo que este não esteja acostumado a ir ao cinema.

O longa Velozes e Furiosos 5 – Operação Rio(Fast Five, 2011, EUA) da Universal Pictures, segue a risca tal conceito. Lançado pela primeira vez em 2001, a franquia encantou muita gente com todos aqueles carros maravilhosos, belas corridas, adrenalina e mulheres vistosas. Ou seja, quem gosta de games, assiste corridas ou simplesmente é apaixonado por carros, não teve dúvida, foi assistir. Apesar do sucesso, a franquia se perdeu e precisou juntar os cacos para voltar a funcionar. O desempenho das continuações não agradou tanto assim a seu próprio público. Agora, porém, ignorando sem medo as histórias anteriores, para agradar a seus fãs, o último filme trouxe novamente todos os astros dos anteriores.

Na trama Dominic Toretto(Vin Diesel) é resgatado da prisão por sua irmã Mia(Jordana Brewster) e seu namorado Brian O´Conner(Paul Walker). Não demora muito, e eles vão para o Rio de Janeiro, prontos para mais um trabalho. O que de início era apenas pegar alguns carros transformou-se num esquema para tirar dinheiro do maior traficante da cidade.

Apesar de ser no Rio de Janeiro, não se surpreenda caso note algumas imagens estranhas. Algumas cenas foram rodadas na cidade maravilhosa, mas grande parte delas foram feitas na cidade de Porto Rico. Prova disto é a insistência das câmeras em mostrar o Cristo Redentor, como que para lembrar a plateia de que ali é o Brasil. Sem contar é claro, a bandidagem, as favelas e as mulheres do funk. Tudo muito clichê. Mas, para quem não conhece o Rio, não há problema. O que o público quer ver mesmo são os carros e muita ação. Quanto a isso, não há do que reclamar.

Após o estrondoso sucesso nos Estados Unidos(a estréia do filme arrecadou 86,6 milhões de dólares no primeiro final de semana, sendo a melhor da história da Universal), é evidente que teremos um sexto filme. O próprio estúdio já anunciou.

Com isso, não se surpreenda se houver o sétimo ou o oitavo, tudo vai depender das bilheterias. Agora, convenhamos, com exceção de "Star Wars", qualquer filme que tenha mais de cinco sequências só pode ser do gênero horror. Enfim, bom para quem gosta.

Avaliação: Regular

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=BGlGTy90Kuk

domingo, 8 de maio de 2011

Ajustes do Destino

Como seria sua vida se ele não a conhecesse? Até que ponto uma pessoa pode mudar a vida de outra?

David Norris é um político jovem e carismático, candidato ao senado pela cidade de Nova York. Sua carreira meteórica se justifica nos discursos que inflamam multidões. Parece ter nascido para aquilo. Tudo vai bem, até que na véspera da eleição a imprensa local publica uma matéria revelando segredos suficientes para lhe fazer perder os votos e a confiança do eleitorado. Ele perde. Pouco antes de fazer o discurso da derrota, inesperadamente conhece uma mulher que mexe profundamente com suas emoções. Após isso ele muda o discurso, e o discurso muda sua vida. Destino?

Estamos acostumados a ver no cinema histórias de amor envolvendo personagens que são destinados um para o outro. Em Agentes do Destino(The Adjustment Bureau, 2011, EUA) ocorre o oposto, aqui ele conspira contra eles. O filme é baseado na obra do escritor Philip K. Dick, insigne por obras de ficção como o clássico “Blade Runner”, longa considerado por muitos o melhor do gênero. Quem arrisca adaptar a trama para as telas é o estreante diretor George Nolfi, antes conhecido por seu trabalho como roteirista da franquia Bourne. A partir daí não é preciso explicar porque Matt Damon está no filme e faz o papel do político Norris.

Após o discurso, Norris segue sua vida, mas o acaso (ou o destino?) se encarrega de colocá-lo novamente diante de Elise(Emily Blunt), que antes de partir lhe entrega seu telefone. Contudo, ao chegar numa reunião, misteriosamente é surpreendido por homens usando chapéus e vestindo preto, que saem e entram de uma forma estranha pelas portas, multiplicando-se e movendo-se de forma mística. “Quem são vocês?”, pergunta Norris, e o personagem de John Slaterry da série Mad Men(aliás, melhor série do momento), inspirador, responde: “Somos aqueles que fazem as coisas saírem como planejado”. Eis os agentes do destino. Richardson lhe explica que existem planos para sua vida e Elise infelizmente faria com que ele os mudasse. Quando a vê, novas possibilidades se abrem. Ou seja, ele não pode ficar com ela e o destino não vai permitir. “Esqueça-se dela, siga sua vida”, diz Richardson. O cartão contendo o telefone é queimado. Não por acaso a história acontece em Nova York. Como achar alguém em meio a mais de 10 milhões de pessoas? Dadas as possibilidades , as chances são remotas. Mas ele não desiste, mesmo após anos. A partir daí, a ficção se torna um romance, e Norris precisa driblar o destino para ficar com sua amada.

Como seria sua vida se ele não a conhecesse? Até que ponto uma pessoa pode mudar a vida de outra? Se sim, será para melhor ou pior? É justo trocar os sonhos de alguém? Não importa, o que importa é que aconteceu.

A ideia de que existe uma ordem natural pré-estabelecida no universo chamada destino é contada desde a civilização grega para explicar o absurdo,. A vida se sustenta porque possui um propósito. Somos peças de um jogo escrito há muito por alguém superior a nossa existência humana. O livre-arbítrio é apenas relativo e aparente. Quando determinadas coisas acontecem ficados intrigados. O café que cai na roupa e nos faz perder aquele ônibus. A mensagem que enviamos e não chega. O acidente que paralisa o trânsito e nos impede de chegar. O que são essas coisas? Coincidências? Acaso? O filme sugere que são obras do destino. Pequenos momentos transformando grandes acontecimentos. Não é preciso mudar a mente de alguém para fazer algo, basta fazer alguns ajustes.

Houve um tempo em que as pessoas não tinham perspectivas, nasciam e morriam tendo em mente que a vida que levavam estava nas mãos de um ser superior. Não podiam mudar nada, como se a vida de hoje fosse um preparo para a de amanhã. Os anos passaram, o homem encontrou a liberdade. Agora o poder está em suas mãos. No entanto, nossa conquista causou mais estragos do que benefícios. Será que precisamos de alguém para controlar nosso destino?

Passamos a vida ignorando determinados acontecimentos para depois descobrir que não há como fazer isso. Nos apegamos a medíocres coincidências que apenas nos fazem enxergar o que queremos. Se existe o destino(pois eu acho que não existe), será que somos capazes de mudá-lo? E se tudo não passar de um teste? O mundo precisa de pessoas que mudem a ordem natural das coisas, seja qual for a definição que você dê a isso. Quem não lutar, que siga obedientemente a rota traçada. Bela metáfora.

A história é muito melhor do que o próprio filme. Precisaríamos mais do que isso? A decisão de ver ou não este filme é importante, pode mudar o que o destino planejou para você.

Avaliação: Bom

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=UWUKM_5aIxs

Bilheteria Americana

Thor estréia em primeiro, mas aquém do esperado pela Marvel

O final de semana americano marcou a estréia do filme do deus nórdico Thor, por aqui lançado uma semana antes, com excelentes 66 milhões de doláres. Contudo, a cifra ainda está longe de cobrir os custos de produção estimados em 150 milhões de dólares. A crítica deste filme você encontra no site.

Em segundo lugar segue firme o quinto filme da franquia Velozes e Furiosos 5 – Operação Rio, com 32milhões de doláres. O longa reúne todos os astros das edições anteriores. Até agora já faturou 132 milhões de dólares, definindo como melhor desempenho do ano até o momento.

O filme de Carlos Saldanha, Rio, despencou para o quinto lugar, mas já tem 114 milhões de doláres sem contar a arrecadação ao redor do mundo. Rio liderou em boa parte dos países da Europa e América do Sul.

Confira o ranking completo deste final de semana:

1. Thor :: $66 milhões // $66 milhões(Total)

2. Velozes e Furiosos :: $32milhões // $132 milhões(Total)

3. Jupimg the Broom :: $13 milhões // $13 milhões(Total)

4. O Noivo da Minha Melhor Amiga :: $13 milhões // $13milhões(Total)

5. Rio :: $8milhões // $114 milhões(Total)

6. Água para Elefantes :: $5 milhões // $41milhões(Total)

7. Madea Big Happy Family :: $3 milhões // $46milhões(Total)

8. Prom :: $2 milhões // $7 milhões(Total)

9. Soul Surfer :: $2milhões // $36milhões(Total)

10. Hoodwinked Too Hood VS Evil :: $1milhão // $6milhões(Total)

Fonte: imdb

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Uma cópia fiel, da vida

Ali podemos perceber que o casamento seria nada mais do que a cópia da felicidade e a originalidade da dor

Qual a linha demarcatória que distingue a cópia do original? Alguns diriam que originalidade remete ao nascimento de algo, mas até nós, mesmo quando nascemos não passamos de uma mera cópia do DNA de nossos antepassados. A originalidade está nos olhos de quem a vê, e a linha entre o autêntico e o falso é tênue demais para afirmarmos que exista.

O mais novo filme do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, Cópia Fiel(Copie Conforme, 2010, França, Irã, Itália) discute este mundo, por acaso nosso mundo, a partir da arte.

Quem conhece outros títulos do diretor sabe que ele cultiva um estilo original de contar histórias sem se preocupar com a forma narrativa. Neles nada acontece, não há conflitos para serem resolvidos, momentos de adrenalina, nem algo para terminar. Assistimos a obras praticamente documentais, pedaços da realidade encontrados em algum lugar deste mundo. Seus filmes marcam o incansável desejo de ele próprio tentar não ser uma cópia de si mesmo.

James Miller(William Shimell) é um filósofo inglês que vai a Itália para falar do lançamento de seu livro, homônimo, que discute a relação entre a cópia e o original, argumentando a importância da primeira para atestar o valor da segunda. Durante a palestra, chega Elle(Juliete Binoche, em excelente atuação), dona de um museu de obras de artes, muitas delas cópias, que apesar de não gostar do livro, sente-se atraída pelo escritor e deseja conhecê-lo. O enredo se desenvolve com os dois caminhando pela Itália, apreciando a paisagem e dialogando despretensiosamente como desconhecidos intimamente relacionados.

A conversa entre eles é construída ao acaso, como se fossem despreparados um para o outro, sempre interrompidos por ligações que os puxam para realidade. Em dado momento, depois de visitar um local onde as pessoas costumam ir para casar e jurar eternidade, uma mulher os vê e pensa que também são um casal. Nenhum deles se importa em corrigir a situação e passam então a reproduzir o que seria a cópia de um casamento de verdade. Neste instante, um telespectador desatento ou que não possui boa memória pode se confundir. Por escolherem serem cópias de si mesmos ambos formam um casal que foi doce no inicio e amargo após alguns anos de relacionamento. Começa um jogo de verdades e mentiras que não podemos distinguir, misturados em meio ao passado de cada um. Ali podemos perceber que o casamento seria nada mais do que a cópia da felicidade e a originalidade da dor. Somos felizes como todos e infelizes como ninguém.

Numa cena marcante, dentro dum restaurante, o casal inicia uma briga. E como em toda briga a coisa começa por algo banal, no caso, um vinho mal servido, que culmina nas mais duras palavras, porque sempre alguém precisa ter razão. De repente tudo fica tão complexo como se um dos dois não estivesse no mesmo tempo do outro, com as mesmas expectativas.

Durante o filme eles passam por uma série de casais de diversas idades. Jovens recém-casados, não necessariamente felizes e idosos não necessariamente infelizes. Qual a receita? Simplicidade. Não seria mais fácil se tudo fosse simples? Não seria melhor viver sem se importar se existe diferença entre o original e a cópia? Somente os idiotas complicam a vida. Somos cópias autênticas de nós mesmos, a vida nos transforma cada dia sem nos deixar perder a essência. Às vezes uma boa cópia fiel é melhor do que o original. As cópias, quem as escolhe, somos nós.

Um filme que merece ser copiado, um diretor que precisa ser imitado e uma mensagem tão original que só pode ser uma cópia fiel de algum momento da nossa bela vida humana.

Avaliação: Ótimo

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=uUVf1EUrK6U

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Um Homem sem Nome

Não há dúvida que ele é um dos maiores que já existiu

Um homem sem nome não pode ser de confiança, ainda mais sendo ele um estrangeiro em terra de estrangeiros. Irônico, mas foi assim que Clint Eastwood imortalizou seu nome: sem nome. Prestes a completar 81 anos, temos muito o que agradecer a este homem, político, cineasta, músico e pensador.

Poucos sabem, mas a vida deste octogenário nem sempre esteve perto do cinema. Nascido em 1930, na época da grande depressão americana, passou por diversos empregos e mesmo após se formar na Universidade de Oakland, ainda trabalhou como atendente de posto de gasolina e bombeiro.

Em 1950, Clint foi convocado ao exército. Numas das viagens, seu avião caiu, quase morreu no acidente. Em função disto, ficou impedido de lutar na Guerra da Coréia. Poderia ter morrido depois, melhor quase morrer antes. Imagine o que perderíamos se isso ocorresse? Se não sabe, vou tentar lhe explicar brevemente.

Sua carreira começou um tanto tardia, quase aos trinta, fazendo pontas em filmes de segunda linha. Em 1959, trabalhou com o diretor James Garner na conhecida série “Maverick”, um prenúncio de que sua vida seria associada ao mundo do western. Apesar do sucesso, foi somente em 1964 que o mundo conheceu seu nome na Trilogia dos Dólares, filmes estes dirigidos pelo italiano Sérgio Leone. Seu personagem não tinha nome, mas seu estilo calado de poucas expressões imortalizou o gênero western, que na época, se arrastava no cinema americano e ganhava sobrevida com o spaghetti western da Europa. Sim, foi na Itália que Eastwood ganhou fama em sua terra natal. Sobre ele, Leone disse certa vez: “Eu gosto do Clint porque ele tem somente duas expressões faciais. Uma com chapéu e outra sem ele.”

A partir daí sua carreira deslanchou. Os críticos não entenderam muito bem na época o que acontecia e demorou um tempo para darem o devido reconhecimento. Todavia, com o público não aconteceu o mesmo, seu sucesso influenciou gerações (Quentin Tarantino disse certa vez que decidiu ser cineasta após vê-lo em "Por um punhado de doláres". Ou seja, sem Clint, não teríamos "Bastardos Inglórios" nem "Pulp Fiction"). Na década de 70 começou sua parceira com Don Siegel no filme Dirty Harry(por aqui "Perseguidor Implacável"). Resultado: mais um mito criado. “Vá em frente, faça meu dia”, diz Dirty, ansioso em ver o mau para poder puxar o gatilho. O filme ganharia mais quatro sequencias. Sua gana para cumprir a leis até as últimas consequências mexeu com a consciência liberal americana.

Na mesma época, Eastwood iniciou sua brilhante carreira de diretor com o filme “Perversa Paixão” sobre um radialista que começa a ser perseguido por uma fã lunática. Diferente dos trabalhos de ator, quando diretor, ele parece se dissociar no western, teoria criada por diversos críticos, mas que não se sustenta. Perceba que ao assistir os filmes dirigidos por ele, invariavelmente verá as mesmas pessoas na equipe técnica, como Joel Cox(editor) e Jack Green(fotografia), para citar alguns. As vantagens são óbvias. Conhecendo a equipe, não é preciso muito tempo para alinhar o pensamento. Durante as filmagens, não se ouve muito barulho, apenas as palavras “Ok”, “Corta”, “Ação”. O cowboy de poucas palavras continua por trás das câmeras, implacável. Seus filmes não demoram mais que quatro semanas para serem editados. Os atores agradecem, quase sempre indicados aos grandes prêmios.

Suas histórias procuram explorar o lado humano. Cada filme possui uma temática diferente. Exemplo disto é seu último longa “Além da Vida”, que trata do complicado tema da morte. Ora, o que Clint poderia falar sobre a morte? Tudo, com uma propriedade e imparcialidade magistrais. Não se trata de um filme espírita em que um médium fica falando com os mortos ou psicografando cartas cheias de obviedades. E o melhor disto é que não precisamos ver o filme para descobrir, basta saber quem o fez.

Seus filmes nunca tiveram grandes orçamentos. Mesmo tendo sucesso como ator, foi somente com o clássico “Os Imperdoáveis” que ganhou a graça do público e da academia americana por seu trabalho na direção. Lançado em 1992, o filme conseguiu excelentes bilheterias e foi indicado a 9 oscars, vencendo 4, incluindo direção e filme. Numa de suas clássicas falas, para explicar a um garoto o que significa abater um homem, ele diz: “É tirar tudo o que ele tem e tudo o que ele alguma vez terá”.

Depois do sucesso com “Os Imperdoáveis”, sua vida como cineasta ficou mais fácil e os temas cada vez mais diversos. Quem não se comoveu com “As Ponte de Madison”? Prova de que o romance também pode atrair os durões. “Sobre Meninos e Lobos” e “Menina de Ouro”, estes também aclamados pela crítica, são obras que falam belamente de temas polêmicos como pedofilia e eutanásia.

Talvez o filme que represente o paroxismo do estilo Eastwood de ser seja o recente “Gran Torino”. Curiosamente foi a obra que mais arrecadou em bilheterias por toda sua carreira como ator e diretor. Ali vemos personagens não apenas fisicamente solitários, mas também moralmente solitários, acompanhados apenas por poucas câmeras lhes dando o tom certo de iluminação, com coragem diante das piores decisões que a vida possa nos trazer.

"Às vezes, eu penso em parar [de trabalhar] por um tempo, mas daí aparece aquele roteiro ótimo...", disse recentemente no lançamento de seu longa “Além da Vida”. Que a vida permita, que os roteiros continuem aparecendo e Clint possa nos dar mais uma década com seus filmes e reflexões. Não há dúvida que ele é um dos maiores que já existiu.

Não sei se foi de propósito, mas tenho uma teoria sobre o Homem sem Nome. Talvez o personagem fosse sem nome, para que nós, ao assistir, pudéssemos colocar os nossos.

Artigo publicado originalmente no Jornal Abcdmaior

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Quando a dor é muito forte

E se as coisas fossem diferentes? Se eu não tivesse agido daquela forma? Na vida, as piores dores originam-se de fatos inesperados e não há pedido de desculpas que possa aliviar isso

Perder alguém na morte é uma das piores dores que alguém pode ter na vida. Some isto o fato de este alguém ser um filho. Pior, uma criança de 4 anos, com a vida inteira pela frente. Não bastasse, tudo isso num acidente, onde não há tempo para se arrepender ou se despedir. Como lidar com essa dor? Como ficam os pais nesta história? Como fica o casamento deles?

Nos cinemas a partir desta sexta, o filme Reencontrando a Felicidade(Rabbit Hole, EUA, 2010) narra uma história como essa, oito meses depois do ocorrido. Becca(Nicole Kidman) e Howie(Aaron Eckhart) vivem um impasse, não conseguem seguir adiante com suas vidas, como se cada dia fosse o dia seguinte ao acidente. E a cada dia, apesar de ainda estarem próximos fisicamente, um enorme distanciamento emocional se abre entre eles.

A história do filme é inspirada na peça homônima de David Lindsay-Abaire, que se destaca por mostrar essa tristeza onde ela está mais presente e cruel, onde só quem a sente pode enxergar. O diretor John Cameron Mitchell, acostumado com as questões da intimidade, de forma brilhante nos coloca rapidamente dentro deste universo, com cenas sutis, poucas palavras, sorrisos e olhares, que deixam de ser o que são porque carregam lembranças de um tempo que não existe mais. Estranhamente, a textura triste do filme não nos afasta, apenas gera compaixão, justamente por saber que todos nós lidamos com a tristeza de formas e tamanhos diferentes. Empatia.

O sentimento de culpa está nitidamente nas costas dos atores em cada cena, mas não há culpados. Nestas horas há os que buscam em Deus um consolo para explicar o ocorrido, assim como também outros o culpam por isso. Numa das mais belas cenas do filme, durante um encontro com um grupo de casais com o mesmo problema, Becca desabafa impetuosamente contra um pai que diz que Deus havia transformado sua filha num anjo. Paradoxo.

Nicole Kidman, que parece ter superado a maldição de atriz que vence o Oscar e se apaga, se mostra afeiçoada aos papéis de infelicidade, convencendo tacitamente o público que a assiste de que a dor não é fácil. Atuação está, aliás, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar deste ano. Merecido.

Lidar com a dor, sozinho, tem suas vantagens. Contudo, em casal, é preciso lidar com a dor do outro e cada pessoa tem maneiras diferentes de enfrentar o mesmo problema. Enquanto Becca não suporta as lembranças, Howie precisa delas pare se reconfortar. Essas diferentes formas de lidar com a situação pode destruir um ao outro mutuamente. “As coisas não são mais legais entre nós”, desabafa o marido, incapaz de seguir adiante. Muitos casais se separam após viver tal apocalipse. Sinal de falta de amor? Ninguém pode ser julgado. Esse é preço de colocar nossa felicidade em cima de outra pessoa. Melhor não amar? Seria sofrer por antecipação.

A mensagem que o filme traz é de que talvez não exista uma formula para lidar com a dor. No entanto, é inegável que temos que enfrenta-la até as últimas consequências. Na cena inicial, uma vizinha elogia o belo jardim de Becca e a convida para um jantar. Incapaz de se relacionar com outras pessoas por causa de sua dor, ela declina o convite. Neste instante, quando ela olha para baixo, vê que a vizinha pisou sem querer na rosa que tanto elogiou, matando-a. Foi sem querer, e ela pede desculpas por isso. A cena resume tudo.

E se as coisas fossem diferentes? Se eu não tivesse agido daquela forma? Na vida, as piores dores originam-se de fatos inesperados e não há pedido de desculpas que possa aliviar isso. Contudo, se formos fortes, algo inesperado também pode mudar tudo outra vez, para o bem.

Avaliação: Bom

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=nypzdbob3sk

domingo, 1 de maio de 2011

Um deus com brilho de vezo

Parece que o filme foi feito para quem não conhece a mitologia e nem o quadrinho.

Não faz muito tempo, a Marvel revolucionou o modo de contar histórias em quadrinhos dentro do cinema. Quando lançou o primeiro filme da franquia Homem de Ferro, além de mostrar o super-herói e contar sua origem, ainda fez leves referências a outras histórias de outros super-heróis, como se tudo acontecesse ao mesmo tempo, no mesmo universo. Isso, claro, estimulou a imaginação dos fãs, que ficavam ansiosos para conhecer as outras partes da história. Seguindo a sequência, agora é a vez do poderoso Thor(Thor, 2011, EUA) ganhar seu filme.

Na trama, Thor é o filho primogênito de Odin, o mais poderoso dos Deuses, e irmão de Loki, o ser mais astuto do universo. Herdeiro natural ao trono, Thor se vê enfurecido com a interrupção da cerimonia que o coroaria como rei pela invasão e quebra do pacto dos Gigantes do Gelo, eternos inimigos de Asgard. Sem o consentimento de Odin, Thor que costuma usar mais a força do que o intelecto decide por conta própria ir até o planeta dos Gigantes e declarar guerra. Não é preciso dizer que sua atitude petulante é desaprovada por seu pai, que o deserda do trono, tira seus poderes e o manda direto a Midgard, ou Terra.

As histórias de Thor e seu martelo Mjolnir são contadas há séculos por gerações. Elas fazem parte da mitologia nórdica que inspirou a trilogia do Senhor dos Anéis e as melhores composições de Richard Wagner. Por aqui ela não é tão conhecida como a grega, mas isso não quer dizer que seja inferior. Talvez com o advento do filme ela passe a ser mais valorizada.

As lendas são contadas nos quadrinhos desde 1963, por ninguém menos que Stan Lee, ele próprio um deus dentro deste mundo. Quem leu os quadrinhos sabe que se trata de uma história rica em detalhes e frases de efeitos, personagens com personalidades complexas e marcantes. A julgar por isso, digamos que o diretor Kenneth Branagh não se saiu bem na tarefa.

No filme, o personagem de Thor é interpretado pelo desconhecido Chris Hemsworth, apropriado ao papel somente pela aparência escandinava, mas sem muito talento como ator. Odin é interpretado por Anthony Hopkins, uma escolha que seria acertada se ele voltasse a atuar como em outros tempos. Além disso, foi uma pena ver o personagem de Loki, interpretado pelo excelente Tom Hiddleston, um dos vilões mais interessantes da mitologia e dos quadrinhos, retratado no filme apenas como um filho revoltado. Com o sucesso de outros filmes e precisando fazer outros tantos em tempo hábil, parece que a Marvel não teve muito tempo para trabalhar a história, deixando tudo acontecendo de forma sorrateira, sem brilho, apenas seguindo o vezo de contar histórias rentáveis.

Por outro lado, o que compensa um pouco estes problemas é a super-produção. As batalhas são épicas, extremamente bem feitas, principalmente para o advento do 3D, mas que nem por isso deixa de ser dispensável. Ou seja, o foco ficou nos efeitos, deixando os diálogos de lado. Prova disso é a patética cena em que a personagem de Natalie Portman corre para seu amado Thor(que conheceu a poucas horas), gritando "Nãooo", após ele receber um golpe do inimigo. Imagine, tudo isso em câmera lenta, difícil de engolir. Mas, para quem não se importa muito com essas coisas e quer ver os heróis na tela, não vai se arrepender. Parece que o filme foi feito para quem não conhece a mitologia e nem o quadrinho.

O próximo filme da Marvel antes de lançar o tão aguardado Vingadores é do herói "mais nacionalista impossível", Capitão América. A partir daí resta saber como unir todas histórias com elementos convincentes. O que um deus tão poderoso como Thor iria fazer com outros heróis, digamos mais humanos, como Tony Stark? Aliás, este é outro problema. Diferente do Homem de Ferro, em que o personagem interpretado por Robert Downey Jr rouba a cena, os demais filmes apenas seguem o protocolo, com atuações de praxe. A plateia vai chiar se ver Downey Jr preterido por outros heróis. O que fazer? Mudar a história? Os fãs dos quadrinhos não vão gostar.

Para encerrar, uma curiosidade e um conselho: os anglo-saxões deram o nome de Thor ao quinto dia da semana, "Thursday" ou "Thor’s day", quinta-feira em inglês. Porventura seja o melhor dia para ver o filme. E por fim, se for ver o filme, lá vai o conselho: não saia do cinema até a tela apagar.

Avaliação: Regular

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=u9WNinne69k