
Que a moda em Hollywood é contar a origem das histórias que todo mundo conhece o final não é novidade já há algum tempo. O problema é que após esgotar o lançamento de suas principais franquias, para não perder o ensejo, o jeito que estúdios encontraram para sanar a óbice foi recontar a própria origem, desta vez, porém, de uma forma que ninguém a conhece.
Grande lançamento da semana, menos badalado do que outros do gênero, mas ainda assim grande aposta, X-Men: Primeira Classe(X-Men First Class, 2011, EUA) inaugura uma nova fase das adaptações. O longa conta a história do Professor X, Charles Xavier, e Magneto, Erik Lehnsherr, antes de serem inimigos, quando ambos queriam salvar o mundo em conjunto. Passado no contexto do Pós-Guerra, por volta do ano de 1962, no auge da Guerra Fria com a crise dos mísseis em Cuba, tudo acontece no território em que os EUA e a URSS duelaram de todas as maneiras, inclusive utilizando seus mutantes.
Nem pense em revisitar os quadrinhos. A história contada aqui é de própria autoria do produtor Bryan Singer, que acha a sua melhor do que a original. Portanto, a novidade em Primeira Classe é que as histórias não necessariamente precisam respeitar seus cânones. Comercialmente, a ideia faz sentido, já que este universo deixou de ser habituado predominantemente por fãs de quadrinhos, dando lugar a um público que conhece os heróis através de outros filmes, de outros desenhos, de outros contos.
No entanto, apesar da sacada, a estratégia é arriscada. Recontar a origem significa que o fim não necessariamente deixará de ser recontado. Em se tratando de uma das melhores histórias de quadrinhos, a responsabilidade de fazer outra é no mínimo enorme, em outras palavras, as chances de fracassar aumentam tacitamente. É lançar a sorte ao público.
Grande parte do elenco é composto por jovens, com exceção do ator Kevin Bacon e Hugh Jackman, eterno Wolverine, que faz uma ponta no filme. Apesar de jovem, o elenco é conhecido de outros filmes e séries, todos muito competentes.
Apesar de diferente, o novo enredo contado por Singer muda aspectos pontuais como datas, diálogos e reviravoltas, tal como o professor Xavier ficou na cadeira de rodas. Mas, por outro lado, a essência continua a mesma, sem maiores mudanças nas estruturas. Já que vai mudar, por que não mergulhar de vez em outros mundos? Perde-se a oportunidade de sair do velho maniqueísmo, ponto fraco em X-Men desde os tempos do original. Ou seja, Xavier continua sendo o cara que quer usar os mutantes bonzinhos para salvar a humanidade e Magneto o rancoroso vingativo que não acredita na raça humana. Sabemos que o mundo não é assim, é mais complexo do que isto, e seria ótimo ver nossos heróis enfrentando problemas de verdade.
Até que ponto devem ser respeitadas as histórias? São elas que transformam nossos heróis ou são eles que criam as histórias? A julgar pela cultura neoliberal predominante em nossos tempos, a segunda hipótese demorou para chegar ao cinema dos heróis. Resta saber como o público vai engolir.
A verdade é que ninguém mais aguenta estes recomeços. Até o final do próximo ano teremos outros deles. Fazer o quê? Com pouca criatividade hoje em dia, o jeito é jogar água no chop pra ele durar mais.
Avaliação: Regular