
Uma relação não chega ao fim por acaso. Assim como pequenas coisas constroem um amor verdadeiro, outras do mesmo tamanho acabam por extirpá-lo. Ambos ou um dos dois pode até tentar ignorar, mas a inércia só faz aumentar a dor, torna as coisas mais difíceis. O fim só espera seu estopim.
Diferente dos romances tradicionais que vemos nas telonas, o filme Namorados Para Sempre(Blue Valentine, 2010, EUA) chega aos cinemas do país para contar diferentes histórias do mesmo casal. Americano, com cara de europeu, o longa surpreende por sua crueza.
A primeira história é de Dean(Ryan Gosling) e sua esposa Cindy(Michelle Williams, indicada ao Oscar pelo papel), pais de uma criança adorável de nome Frankie(uma das mais lindas que já vi). Extremos opostos um do outro - ele sonhador e brincalhão, ela tímida e responsável - ambos encontram dificuldade em lidar com as discussões, desconfianças e rejeições, que dada a frequência em que ocorrem, acabam por tornar o casamento um inferno.
Ao mesmo tempo, vemos outra história, de dois jovens apaixonados, os mesmos Dean e Cindy, com as mesmas diferenças e atributos, desta vez, porém, apaixonados. Nesta parte, tudo funciona, cada coisa em seu lugar, só sorrisos.
Tais histórias são contadas simultaneamente, uma depois da outra. Primeiro a tragédia, em seguida as alegrias que ocorreram antes dela, anos antes. E essa é a graça do filme. Ficamos divididos entre lágrimas, de tristeza e alegria. O contraste dos instantes nos faz pensar em que momento aquilo acabou, se é que chegou a existir de verdade.
Incrível, mas as mesmas qualidades que fizeram Cindy se apaixonar por Dean no passado, hoje, só fazem odiá-lo. Suas virtudes tornaram-se defeitos insuportáveis. Essa mudança é trágica e ele, que não sabe ser outra pessoa senão ele mesmo, tenta desesperadamente reconquistar aquele amor usando as mesmas táticas que já não funcionam mais. E nós vemos como em outro momento elas funcionaram.
Não é possível amar alguém sem ser amado. O amor é um sentimento que clama reciprocidade, construído a cada dia pelos dois da forma mais inesperada possível. Para isso não há receita de bolo, diferente do que os livros de autoajuda e as revistas de plantão tentam nos ensinar. Quando um deles desliga, as coisas param de crescer, entra em cena a inércia.
Provavelmente não seja uma boa escolha para o Dia dos Namorados. Diferente do título em português, ridiculamente escolhido em função da data comercial, aqui eles podem até ser namorados, mas não vão durar para sempre.
Há quem diga que o parceiro ideal seja aquele que nos faz rir. Eu acrescento: o parceiro ideal é aquele que nos faz rir de nós mesmos. O filme nos mostra que quando isso não ocorre, salve-se quem puder.
Avaliação: Bom
As pessoas confundem o que é o amor. O mundo que nos é pintado foge completamente da realidade. Só quem estive num relacionamento sério sabe o quanto isso é verdade.
ResponderExcluirMuito bom seu comentário sobre reciprocidade. E sobre rir de nós mesmos...não há nada melhor...