sábado, 25 de junho de 2011

Bruno Giorgi e Mocaca

Ou seria melhor, Mococa e Bruno Giorgi? Um não seria o mesmo sem o outro

por Thiago Miota

Neste feriado santo (redundante não é mesmo?) a Capital da Arte precisava descansar um pouco após horas e horas de textos e pesquisas sobre cultura. E o dilema era: qual cidade escolher? Além de pensar nos amigos, precisava ser um lugar que não remetesse a nada relacionado à arte ou cultura. Pois bem, escolhemosMococa, cidade de aproximadamente 70 mil habitantes do interior do estado de São Paulo, que faz divisa com Minas Gerais. Não sabíamos, mas era uma armadilha. Além de sua própria história, Mococa tem entre suas crias o ilustre artista brasileiro Bruno Giorgi. Que falha! Tudo bem, depois que caímos na armadilha e descobrimos onde estávamos pisando, não teve jeito, fomos atrás das histórias. Mas antes de falar sobre ele, é necessário fazer uma apresentação da cidade, aliás, bela cidade.

Vamos começar por seu nome, que significa “casa do pequeno esteio”. Fácil de entender, preciso apenas esquartejar o nome: mu:”pequeno”; co:”esteio”; ca:“casa”(não estranhe o “mu” ao invés de “mo”, por aqui as pessoas puxam o “o” para o “u” mesmo). Fundada em meados de 1840 pelo Barão de Monte Santo, o senhorGabriel Garcia Figueiredo, existe oficialmente como cidade desde 1875. Como diz o significado do nome, havia escravos na região devido a excelente plantação de café, considerada uma das melhores do país (nesta época o Brasil era o principal exportador de café do mundo, o que fazia da cidade uma das melhores do mundo). Contudo, em pouco tempo, veio à abolição da escravidão (como você sabe, em 1988) e os fazendeiros se viram obrigados a optar por outra mão-de-obra: a estrangeira. Em meio aquela onda de imigração ao país, toda italiana embarcando para nossa terra, não foi difícil para os poderosos fazendeiros de Mococa ajeitar a casa novamente. Sendo assim, em pleno nordeste de São Paulo, ocorreu uma forte mistura de europeus como alemães, austríacos e espanhóis, mas, sobretudo, italianos.

Depois da Primeira Guerra Mundial em 1914 e a decadência do café devido ao cenário internacional de crise financeira, a economia do país precisou mudar seu principal produto de exportação. Com Mococa não foi diferente. Ricos, os fazendeiros da cidade passaram então a investir em gado de leite. Por fim, durante aRevolução Constitucionalista, muito em função de sua localização, a cidade foi um dos fronts na batalha entre paulistas e mineiros. É possível verificar no patrimônio histórico da cidade as marcas da guerra.

Mas por que eu contei tudo isso? É que no meio de tudo isso, nasce em 1905, Bruno Giorgi, filho de imigrantes italianos. Ou seja, se não fosse toda essa história, não haveria Bruno Giorgi, nem uma série de outras coisas que vou contar mais adiante.

Como era filho de italianos, e nesta época as coisas por lá estavam melhores do que por aqui, o rapaz foi para Itália. Ainda jovem, envolveu-se com movimentos antifascistas, chegando até mesmo a ser preso, condenado a sete anos de prisão. Graças à intervenção de um embaixador brasileiro, ficou livre para retornar ao Brasil. Mas ele não sossegou. Também tentou participar da revolução espanhola, mas depois desistiu e foi para França, onde participou junto com outros italianos de um certo movimento antifascista através da arte. Ou seja, o cara odiava o fascismo com todas as forças.

Após todos estes conflitos e contato com muita gente culta, talentosa e engajada (Henry Moore, Marino Marini,Charles Despiau e Aristide Maillol), retornou ao Brasil, mais velho, mais maduro. Agora, fincando raízes, o artista começa suas grandes obras, verdadeiros patrimônios da cultura nacional. Seu estilo foi subdividido em três fases que compreendem sua produção nas décadas que vão de 1940 a 1950. A primeira fase, conhecida como figurativa, teve bastante influência acadêmica com vários retratos, bustos e corpos femininos, ora gordos e opulentos, ora alongados e líricos. Na segunda fase, chamada vegetativa, Giorgi mantém a utilização de figuras com hastes e preocupa-se com o dinamismo das obras. Na última fase, mais conhecida, chamada tectônica, as esculturas assumem um significado mais abstrato e um caráter mais arquitetônico.

O primeiro deles foi o “Monumento a Juventude Brasileira“(1947) nos jardins do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio da Cultura, no Rio de Janeiro.

Anos depois em Brasília, dos monumentos de sua autoria, destaque para “Os Guerreiros”(1959), mas que depois passou a ser chamado de “Os Candangos”. Com oito metros de altura, a estátua erguida em meio à Praça dos Três Poderes, é uma composição frontal e estilizada de dois corpos em pé. O grupo é quase simétrico, exageradamente plano, com pouca massa e muitos vazios. As figuras apoiam-se uma na outra, cada qual portando uma vara-lança; apenas uma se apoia no chão.

Interessante, mas “Candango” era o nome que os africanos usavam para referir-se a seus colonizadores portugueses, termo pejorativo para um individuo ordinário, ruim. Contudo, no Brasil, a palavra mudou sua conotação, agora referindo-se positivamente as pessoas que trabalhavam na construção da capital. Ou seja,Juscelino Kubitschek era um baita “candangão”. Daí o porque da mudança. Anteriormente “Os Guerreiros”, hoje o monumento é conhecido como “Os Candangos”. Em 1959 a palavra ganhava assim outro estatuto , o de sinônimo de desbravador, de homem que confia no progresso, de brasileiro comum, operário de Brasília. Sobre isso, o próprio Giorgi revelou: “Eu fiz os guerreiros que foram fundidos aqui no Rio de Janeiro. E eu tinha feito uma maquete de um metro e meio ai eles aprovaram, a comissão aprovou, inclusive o Oscar Niemeyeraprovou. Então depois eu ampliei aqui, fiz com 9 metros de altura. Depois tem um pequeno pedestal, depois tem dois elementos que se abraçam que chamam de guerreiro, mas o meu sonho era fazer uma homenagem ao candango. Tanto que depois veio pôr nome de candango. Isso aqui é um monumento aos candangos”.

Ainda em Brasília, além da obra citada, temos o “Meteoro” (1967), no lago do edifício do Ministério das Relações Exteriores, localizado no espelho d’água em frente ao Palácio do Itamaraty. Uma de suas obras em bronze, “Herma de Tiradentes” (1986), se encontra à esquerda da rampa de acesso ao Panteão da Pátria Tancredo Neves, uma justa homenagem a Tiradentes. Um dos seus últimos trabalhos foi o monumento “Integração” (1989), no Memorial da América Latina, em São Paulo. Bruno morreu em 1993.

Entre os habitantes da cidade existe um enorme orgulho em relação ao nome do escultor, sendo difícil encontrar alguém que não o conheça. É possível ver na praça da cidade algumas réplicas de suas obras como “A Esfinge”(1960), como também “Os Candangos”. Aliás sobre isso, há curiosidade um tanto trágica, contada pelas pessoas da cidade. Na praça, em meio há alguns jardins, uma mulher se aproximou e colocou o filho entre os braços da esfinge para tirar fotos. O problema é que a estátua já estava um tanto frouxa, e antes que a mãe esboçasse alguma reação, ela despencou sobre criança, matando-a. Em função disto, a estátua foi retirada da praça por alguns anos, mas está de volta, num local diferente.

Uma bela cidade de cruzamento histórico muito interessante com um dos maiores artistas brasileiros. Conivências a parte, é muito interessante os caminhos da história, seus detalhes. Ver que decisões aleatórias podem desencadear numa série de acontecimentos ao redor do mundo nos fazer perceber que não é possível entender o presente sem olhar para o passado. Enfim, vou voltar para o meu descanso. Espero não encontrar mais armadilhas da arte neste final de semana, senão, vou acabar descansando, com o Bruno. Ah! Sobre os habitantes de Mococa: divinamente hospitaleiros.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Faz Diferença Sonhar?

A viagem do personagem nos mostra que por mais esquisito que seja seu sonho, ele deve ser alimentado

por Thiago Miota

Nunca se afaste de seus sonhos, porque se eles forem, você continuará vivendo, mas também terá deixado de existir. Essas palavras não são minhas, mas do grande escritor Mark Twain, que revelam a importância dos sonhos na vida de alguém, por mais desgraças ou sorte que ele tenha. Os sonhos são o tecido da pele do homem.

No entanto, no caso de Henry(Keanu Reeves), nada disto faz sentido. Em O Crime de Henry(Henry´s Crime, 2010, EUA) ele é uma pessoa que apenas se contenta em ser normal. Da casa para o trabalho, da sua esposa de volta para o trabalho, segue sua rotina inerte. Sem sonhos, vê as coisas acontecendo ao seu redor pacatamente, como se os outros tomassem as decisões por ele, completamente refém das circunstâncias.

Tudo muda quando ele é preso por roubar um banco, crime que não cometeu. Condenado a cumprir três anos, vê sua mulher o trocar por outro homem no momento mais trágico de sua vida. Ele não sofre. Na prisão, conhece o velho Max(James Caan), que lhe pergunta qual era seu sonho. “Acho que não tenho nenhum”, responde Henry. “Bem, o verdadeiro crime é você não explorar o seu sonho”. Passado o tempo de sua pena, agora ele tem um sonho: roubar o banco que não roubou.

O longa marca a estreia de Reeves como produtor. Afastado dos holofotes desde os tempos de "Matrix", apesar de ter feito outros filmes como “A Casa do Lago”, o ator não encontrou o prestígio de outrora. Seu sucesso teve efeitos colaterais, marcando-o como inexpressivo em qualquer papel, fato que ele próprio, agora, parece notar. Aqui, a escolha do personagem torna sua limitação uma virtude.

A intenção do filme é transformar todas as tragédias e infortúnios de Henry em fatos engraçados. Não são. Ao longo da trama podemos ver as mudanças, que aos poucos vai encontrando seu lugar na vida, como quando conhece Julie(Vera Formiga), e decide participar de uma peça de Tchekov. Nada disso será problema, desde que você não espere uma comédia, pois se trata de um verdadeiro drama.

A viagem do personagem nos mostra que por mais esquisito que seja seu sonho, ele deve ser alimentado. Por vezes nos dobramos as imposições que a vida nos faz atribuindo explicações à única verdade: falta coragem. O passo seguinte é a frustração, e a falta de sonhos pode nos fazer ter coisas que não escolhemos. Daí a indiferença diante das tragédias. Twain tinha razão. Os sonhos também podem ser um sofrimento.

Um bom começo para Reeves em sua nova função. Para ficar melhor, falta sonhar com roteiros e diretores melhores.

Avaliação: Regular


domingo, 19 de junho de 2011

Casando com a Pessoa Errada

Mesmo prestes a se casar, ele ainda está dividido entre duas mulheres

por Thiago Miota

Apesar de estar um tanto fora de moda, o casamento talvez ainda seja a decisão mais importante na vida de alguém. As juras de amor não são para alguns meses, mas por toda a vida, independente dos mecanismos legais disponíveis para anular este voto. Ninguém casa pensando que vai dar errado. Pelo menos é assim que deveria ser.

Este é o impasse vivido por Tom(Josh Duhamel) em O Casamento do Meu Ex(The Romantics, 2010, EUA). Mesmo prestes a se casar, ainda está dividido entre duas mulheres. Uma delas, Lila(Anna Paquin), sua noiva, aparentemente é a escolha perfeita: linda de morrer, além de rica também tem como virtude ser responsável a ponto de controlar as loucuras dele, ou seja, a garota da vitrine que todos querem comprar, mas somente alguns sortudos podem bancar. Já Laura(Katie Holmes), sua ex-namorada, mesmo não sendo perfeita em seus atributos de beleza, é a pessoa que o inspira, alguém com que ele sabe dividir e expressar seus sentimentos, alguém que consegue extrair o melhor de suas alucinações. O dilema seria uma espécie de decisão entre a melhor escolha e a escolha certa.

Tudo se passa no dia antes do casamento, com todos preparativos, a chegada dos convidados, os melhores amigos dos noivos. Apesar da festa, há um clima estranho no ar, que todos percebem, mas tentam ignorar resgatando lembranças, fazendo piadas, procurando transformar aquele momento em algo inesquecível. Não basta.

Em vários aspectos, o filme é fraco e deixa a desejar, começando pela montagem e edição. Por vezes somos colocados diante de cenas desnecessárias sem relevância para o enredo e muito menos para o entretenimento. O longa, que já é curto, poderia ter menos de uma hora que ainda assim teríamos momentos de tédio. Mas o pior defeito é o desempenho dos atores, em especial aqueles que fazem os amigos dos noivos. A ideia seria representar uma cena nostálgica num instante de transição na vida do amigo onde aparecem todas as lembranças de momentos marcantes que tiveram, mas que agora iria mudar, ou seja, era a parte onde entrava a emoção. Contudo, o que vemos, através dos atores, é apenas um bando de desconhecidos fazendo farra, totalmente sem inspiração.

A parte boa fica por conta do dialogo entre Laura e Tom, ponto alto do roteiro, onde aparecem citações literárias e boas discussões. Ali dá pra perceber que na verdade ele sabe o que tem que ser feito, sabe quem realmente ama.

Enfim, o que temos é nada mais do que o retrato da covardia de uma pessoa incapaz de tomar a decisão certa, para própria vida e de outras. Quem sofre mais não é o preterido e sim o escolhido. Parece absurdo, mas acreditem em mim, ainda existem histórias assim. Os opostos se atraem para depois morrer de tédio. Melhor morrer de emoção.

Avaliação: Ruim

Artigo publico originalmente em http://capitaldaarte.com

Casando com a Pessoa Errada

Mesmo prestes a se casar, ele ainda está dividido entre duas mulheres

por Thiago Miota

Apesar de estar um tanto fora de moda, o casamento talvez ainda seja a decisão mais importante na vida de alguém. As juras de amor não são para alguns meses, mas por toda a vida, independente dos mecanismos legais disponíveis para anular este voto. Ninguém casa pensando que vai dar errado. Pelo menos é assim que deveria ser.

Este é o impasse vivido por Tom(Josh Duhamel) em O Casamento do Meu Ex(The Romantics, 2010, EUA). Mesmo prestes a se casar, ainda está dividido entre duas mulheres. Uma delas, Lila(Anna Paquin), sua noiva, aparentemente é a escolha perfeita: linda de morrer, além de rica também tem como virtude ser responsável a ponto de controlar as loucuras dele, ou seja, a garota da vitrine que todos querem comprar, mas somente alguns sortudos podem bancar. Já Laura(Katie Holmes), sua ex-namorada, mesmo não sendo perfeita em seus atributos de beleza, é a pessoa que o inspira, alguém com que ele sabe dividir e expressar seus sentimentos, alguém que consegue extrair o melhor de suas alucinações. O dilema seria uma espécie de decisão entre a melhor escolha e a escolha certa.

Tudo se passa no dia antes do casamento, com todos preparativos, a chegada dos convidados, os melhores amigos dos noivos. Apesar da festa, há um clima estranho no ar, que todos percebem, mas tentam ignorar resgatando lembranças, fazendo piadas, procurando transformar aquele momento em algo inesquecível. Não basta.

Em vários aspectos, o filme é fraco e deixa a desejar, começando pela montagem e edição. Por vezes somos colocados diante de cenas desnecessárias sem relevância para o enredo e muito menos para o entretenimento. O longa, que já é curto, poderia ter menos de uma hora que ainda assim teríamos momentos de tédio. Mas o pior defeito é o desempenho dos atores, em especial aqueles que fazem os amigos dos noivos. A ideia seria representar uma cena nostálgica num instante de transição na vida do amigo onde aparecem todas as lembranças de momentos marcantes que tiveram, mas que agora iria mudar, ou seja, era a parte onde entrava a emoção. Contudo, o que vemos, através dos atores, é apenas um bando de desconhecidos fazendo farra, totalmente sem inspiração.

A parte boa fica por conta do dialogo entre Laura e Tom, ponto alto do roteiro, onde aparecem citações literárias e boas discussões. Ali dá pra perceber que na verdade ele sabe o que tem que ser feito, sabe quem realmente ama.

Enfim, o que temos é nada mais do que o retrato da covardia de uma pessoa incapaz de tomar a decisão certa, para própria vida e de outras. Quem sofre mais não é o preterido e sim o escolhido. Parece absurdo, mas acreditem em mim, ainda existem histórias assim. Os opostos se atraem para depois morrer de tédio. Melhor morrer de emoção.

Avaliação: Ruim

Artigo publico originalmente em http://capitaldaarte.com

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Com pouco tempo

Apesar de ser um suspense de ficção científica, o filme vai além apresentando questões existenciais

O que você faria se tivesse menos de um minuto de vida? Bem, esse é o tema do novo filme de Duncan Jones, que para quem não conhece, é filho do famoso cantor David Bowie. Contra o Tempo(Source Code, 2011, EUA) conta a história do capitão Colter Stevens(Jake Gyllenhall), que acorda repentinamente dentro de um trem conversando com uma mulher deslumbrante(Michelle Monaghan), desconhecida para ele, mas estranhamente, conhecido para ela. Desnorteado, sai pelos vagões até chegar ao espelho e ver a imagem de uma pessoa que não é ele mesmo. Após alguns minutos, oito mais precisamente, uma bomba explode todo trem, e ele acorda preso numa fria cápsula em alguma base militar altamente secreta sendo interrogado exaustivamente por uma agente sobre a localização da bomba.

Sem as respostas, ele volta para a mesma cena, do zero, mesmo lugar, mesmo trem, mesmas pessoas e acontecimentos. Nova explosão. Mais perguntas. Com o tempo e mais informações, ele entende que está participando de um programa do governo. O projeto baseia-se no fenômeno da sobrevivência dos oito minutos finais da memória pós-morte cerebral. O Dr. Rutledge (Jeffrey Wright), mentor do experimento, capturou os oito minutos finais da memória de Sean Fentress(a pessoa que ele entra) que esteve na explosão e, através do programa computacional “Código Fonte” faz com que Colter seja inserido nesses minutos finais repetidas vezes, através da identidade de Sean. Há um terrorista aprontando uma série de atentados pela cidade, e descobrir a origem daquele é fundamental para evitar os demais. Eis a trama.

Apesar de ser um suspense de ficção científica, o filme vai além apresentando questões existenciais. Colter volta inúmeras vezes para a mesma cena, mas a cada volta, vê as coisas de um jeito diferente produzindo resultados diferentes. Mesmo sabendo que após cada morte ele terá a chance de voltar e fazer às mesmas coisas, aquele fim eminente, a proximidade com a morte, faz com que ele veja a vida de uma forma diferente. E quando percebe isso e olha a seu redor, é como se todas as outras pessoas já estivessem mortas presas em suas rotinas. Ou seja, sua missão de salvar vidas não se resume apenas a bomba.

O argumento do filme é excelente, procura dar boas explicações para criação deste universo paralelo e deixa o gostinho da dúvida em nossa cabeça de se é possível ou não existir algo assim. Como seria nossa vida em outro universo? Tomando decisões diferentes, seriamos diferentes?

Aqui o filho de Bowie prova que pode se desvencilhar do nome do pai, tem talento, mas bem que poderia pegar emprestada a canção “Under Pressure” para trilha sonora. Na sua primeira produção hollywoodiana, saiu-se muito bem, sem apelar para os clichês, com exceção de algumas partes, sem exageros.

Mas então, o que você faria se tivesse menos de um minuto de vida? Talvez o importante não seja como responderíamos essa pergunta, e sim, que entendêssemos sua magnitude e tivéssemos a oportunidade de continuar a viver, para fazer melhor, de uma forma diferente.

Avaliação: Bom

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Duas faces do mesmo casal

Tais histórias são contadas simultaneamente, uma depois da outra. E essa é a graça do filme

Uma relação não chega ao fim por acaso. Assim como pequenas coisas constroem um amor verdadeiro, outras do mesmo tamanho acabam por extirpá-lo. Ambos ou um dos dois pode até tentar ignorar, mas a inércia só faz aumentar a dor, torna as coisas mais difíceis. O fim só espera seu estopim.

Diferente dos romances tradicionais que vemos nas telonas, o filme Namorados Para Sempre(Blue Valentine, 2010, EUA) chega aos cinemas do país para contar diferentes histórias do mesmo casal. Americano, com cara de europeu, o longa surpreende por sua crueza.

A primeira história é de Dean(Ryan Gosling) e sua esposa Cindy(Michelle Williams, indicada ao Oscar pelo papel), pais de uma criança adorável de nome Frankie(uma das mais lindas que já vi). Extremos opostos um do outro - ele sonhador e brincalhão, ela tímida e responsável - ambos encontram dificuldade em lidar com as discussões, desconfianças e rejeições, que dada a frequência em que ocorrem, acabam por tornar o casamento um inferno.

Ao mesmo tempo, vemos outra história, de dois jovens apaixonados, os mesmos Dean e Cindy, com as mesmas diferenças e atributos, desta vez, porém, apaixonados. Nesta parte, tudo funciona, cada coisa em seu lugar, só sorrisos.

Tais histórias são contadas simultaneamente, uma depois da outra. Primeiro a tragédia, em seguida as alegrias que ocorreram antes dela, anos antes. E essa é a graça do filme. Ficamos divididos entre lágrimas, de tristeza e alegria. O contraste dos instantes nos faz pensar em que momento aquilo acabou, se é que chegou a existir de verdade.

Incrível, mas as mesmas qualidades que fizeram Cindy se apaixonar por Dean no passado, hoje, só fazem odiá-lo. Suas virtudes tornaram-se defeitos insuportáveis. Essa mudança é trágica e ele, que não sabe ser outra pessoa senão ele mesmo, tenta desesperadamente reconquistar aquele amor usando as mesmas táticas que já não funcionam mais. E nós vemos como em outro momento elas funcionaram.

Não é possível amar alguém sem ser amado. O amor é um sentimento que clama reciprocidade, construído a cada dia pelos dois da forma mais inesperada possível. Para isso não há receita de bolo, diferente do que os livros de autoajuda e as revistas de plantão tentam nos ensinar. Quando um deles desliga, as coisas param de crescer, entra em cena a inércia.

Provavelmente não seja uma boa escolha para o Dia dos Namorados. Diferente do título em português, ridiculamente escolhido em função da data comercial, aqui eles podem até ser namorados, mas não vão durar para sempre.

Há quem diga que o parceiro ideal seja aquele que nos faz rir. Eu acrescento: o parceiro ideal é aquele que nos faz rir de nós mesmos. O filme nos mostra que quando isso não ocorre, salve-se quem puder.

Avaliação: Bom

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=tgNukjLuwMQ