sexta-feira, 1 de julho de 2011

Pirotecnia Deslavada

No longa tudo é secundário perante os efeitos, inclusive a própria história, que parece atrapalhar a ação do filme

por Thiago Miota

Ele é o diretor das catástrofes. Em sua lista aparecem “Armageddon”, “A Ilha”, “Transformes” e “Tranformers: A Vigança dos Derrotados”, sem contar os terrores que produziu como “Sexta-Feira 13” e “A Morte Pede Carona”. Nos tempos em que as pessoas parecem incapazes de se concentrar somente numa coisa só, suas habilidades pirotécnicas tornam-o uma espécie de zeitgeist dos cinemas.

Estou falando do cineasta Michael Bay, que dirige Transformers: O Lado Oculto da Lua(Dark of the Moon,2011,EUA),aparentemente fechando a trilogia. Conhecendo seu currículo, pode-se imaginar o que teremos nas telas.

Desta vez, a história do filme remete a Guerra Fria(com certeza o contexto mais clichê do cinema), no período da corrida espacial entre Estados Unidos e URSS. Sabe-se que os americanos chegaram primeiro, mas foram os russos que estrearam as câmeras. Um dia Optimus descobre que os humanos lhe esconderam algo ocorrido no lado oculto da Lua. Trata-se da queda de uma espaçonave vinda de Cyberton, comandada por Sentinel Prime, que desencadeou a corrida espacial. Agora os Autobots precisam despertar Sentinel, que julgam fundamental para deter os Deceptions. Contudo, eles não imaginavam que aquilo pudesse ser uma armadilha.

No longa tudo é secundário perante os efeitos, inclusive a própria história. O roteiro do filme é tão ruim que nem atores de altíssimo nível como John Turturro, Frances McDormand e John Malkovich conseguem dar sentido para o caos. Somente Shia LaBeouf parece acostumado com tudo aquilo.

Como brigou com o diretor, a atriz e musa dos filmes anteriores, Megan Fox, foi substituída. Para explicar o fato, o personagem de LaBeouf diz que foi chutado, mas que agora está feliz pois encontrou o amor de sua vida, ou seja, a outra não era tudo aquilo. O desenrolar da trama não desenrola, apenas uma confusão de quem vem a Terra, quem vai ficar com o poder, algumas intrigas malfeitas e piadas espalhadas no meio das cenas de ação. Nas poucas vezes que os diálogos aparecem, para não atrapalhar, apenas servem para explicar algum ponto nebuloso do filme.

São mais de duas horas e trinta minutos, um verdadeiro martírio. Poderia ser apenas uma, e ainda seria cansativo. Os feitos especiais e a produção são excelentes, mas depois de alguns minutos perdem a graça.

Se foi tão difícil para assistir, imagine para Michael Bay dirigir. Aliás, antes de começar as filmagens do terceiro, ele próprio revelou que o segundo “foi um lixo”, explicando que havia sido assim por causa da correria. Só que desta vez não há desculpa, e parece que o resultado não ficou muito diferente do último.

A estreia foi acertadamente adiantada para o dia 29 de junho nos Estados Unidos, reservando a sexta para o restante do mundo. Com o que foi arrecadado até agora, estima-se que, somente nesta semana, o filme arrecade cerca de U$350 milhões de dólares. Enfim, eles sabem o que estão fazendo. Talvez venham mais histórias por aí.

Um filme bonito para se ver, mas extenuante de se assistir.

Avaliação: Ruim

Artigo publicado originalmente em www.capitaldaarte.com

Famílias Perdidas

Infelizmente há pessoas que não podemos substituir. É preciso ser forte para entender e aceitar quando perdemos alguém para sempre

por Thiago Miota

As famílias formam à base de qualquer sociedade. Se algum país, estado ou cidade não vai bem e você quiser olhar fundo para encontrar o verdadeiro problema, invariavelmente vai acabar chegando na família. Ela não é culpada de tudo, mas é onde tudo começa. Ignorar este fato pode ser um sério problema.

O filme Corações Perdidos (Welcome to the Rileys, 2010, EUA, Inglaterra) representa muito bem o que estou dizendo apresentando a vida de duas famílias esfaceladas. Numa delas, temos Doug(James Gandolfini), um homem bem-sucedido, empresário, praticamente aposentado, muito bem casado, mas que leva uma vida vazia. Sua vida perdeu o sentido quando a filha, de 15 anos, morreu vítima de um acidente. Sem ela, sua família não foi mais a mesma. Sua esposa Lois(Melissa Leo) jamais saiu de casa depois disto, sequer para pegar as cartas do correio. Com o tempo eles se distanciaram cada vez mais.

As coisas mudam quando Doug descobre que sua esposa comprou uma lápide ao lado do túmulo da filha, como uma espécie de planejamento para o futuro. Isso o enfurece e desesperado com a vida que leva como se fosse uma espécie de morto que faltasse apenas enterrar, sente que precisa fazer alguma coisa, mas não sabe o quê. “Não estou morto”, diz, “há muitos lá fora que estão mortos e precisam de lápides, mas nós não.”

Numa convenção do trabalho, em Nova Orleans, ele sai abruptamente até chegar num clube de strip. Lá vai parar, por acaso, num quarto de uma stripper, que fica incomodada com o fato de ele não querer transar com ela. Depois de tanto insistir, pensando que ele é um policial, sai aos berros pela casa. No entanto, os dois se encontram, por acaso novamente, e ele pede desculpas, o que culmina numa amizade. Doug liga para esposa, informando que não voltará para casa.

A stripper, interpretada por Kristen Stewart de “Crepúsculo“, sozinha, forma a outra família. Ainda criança, ela perde os pais, também num acidente e acaba por levar uma vida promíscua, sem direção por falta de orientação. Doug enxerga nela a oportunidade de continuar cuidando de sua filha.

A história sofre diversas reviravoltas, que apesar das diferenças e momentos alegres, acaba sendo um retrato fiel de uma família, no caso, remendada, com todas suas contradições. Doug e Lois formam a parte da família sem uma filha e o estrago que isso causa é de certa forma amenizado por uma adolescente sem família, a segunda parte que se complementa.

Temos aqui um verdadeiro drama, coroado por belas atuações que nos fazem sentir a angústia de viver no vazio por estar sem as pessoas que amamos. Jake Scott, o diretor, tem nas mãos seu primeiro trabalho nas telas e mostra que saber fazer mais do que clipes musicais. A trilha sonora, por vezes imperceptível, dá o tom certo para os momentos vazios, aqueles onde sequer podemos ouvir nosso próprio coração.

Infelizmente há pessoas que não podemos substituir. É preciso ser forte para entender e aceitar quando perdemos alguém para sempre. Como disse Hector Abad Faciolince, há momentos na vida em que só podemos nos divertir, mas há outros em que só podemos sofrer. Se sobrevivermos a isso, quer dizer que amadurecemos.

Avaliação: Bom

Artigo publicado orignalmente em www.capitaldaarte.com

sábado, 25 de junho de 2011

Bruno Giorgi e Mocaca

Ou seria melhor, Mococa e Bruno Giorgi? Um não seria o mesmo sem o outro

por Thiago Miota

Neste feriado santo (redundante não é mesmo?) a Capital da Arte precisava descansar um pouco após horas e horas de textos e pesquisas sobre cultura. E o dilema era: qual cidade escolher? Além de pensar nos amigos, precisava ser um lugar que não remetesse a nada relacionado à arte ou cultura. Pois bem, escolhemosMococa, cidade de aproximadamente 70 mil habitantes do interior do estado de São Paulo, que faz divisa com Minas Gerais. Não sabíamos, mas era uma armadilha. Além de sua própria história, Mococa tem entre suas crias o ilustre artista brasileiro Bruno Giorgi. Que falha! Tudo bem, depois que caímos na armadilha e descobrimos onde estávamos pisando, não teve jeito, fomos atrás das histórias. Mas antes de falar sobre ele, é necessário fazer uma apresentação da cidade, aliás, bela cidade.

Vamos começar por seu nome, que significa “casa do pequeno esteio”. Fácil de entender, preciso apenas esquartejar o nome: mu:”pequeno”; co:”esteio”; ca:“casa”(não estranhe o “mu” ao invés de “mo”, por aqui as pessoas puxam o “o” para o “u” mesmo). Fundada em meados de 1840 pelo Barão de Monte Santo, o senhorGabriel Garcia Figueiredo, existe oficialmente como cidade desde 1875. Como diz o significado do nome, havia escravos na região devido a excelente plantação de café, considerada uma das melhores do país (nesta época o Brasil era o principal exportador de café do mundo, o que fazia da cidade uma das melhores do mundo). Contudo, em pouco tempo, veio à abolição da escravidão (como você sabe, em 1988) e os fazendeiros se viram obrigados a optar por outra mão-de-obra: a estrangeira. Em meio aquela onda de imigração ao país, toda italiana embarcando para nossa terra, não foi difícil para os poderosos fazendeiros de Mococa ajeitar a casa novamente. Sendo assim, em pleno nordeste de São Paulo, ocorreu uma forte mistura de europeus como alemães, austríacos e espanhóis, mas, sobretudo, italianos.

Depois da Primeira Guerra Mundial em 1914 e a decadência do café devido ao cenário internacional de crise financeira, a economia do país precisou mudar seu principal produto de exportação. Com Mococa não foi diferente. Ricos, os fazendeiros da cidade passaram então a investir em gado de leite. Por fim, durante aRevolução Constitucionalista, muito em função de sua localização, a cidade foi um dos fronts na batalha entre paulistas e mineiros. É possível verificar no patrimônio histórico da cidade as marcas da guerra.

Mas por que eu contei tudo isso? É que no meio de tudo isso, nasce em 1905, Bruno Giorgi, filho de imigrantes italianos. Ou seja, se não fosse toda essa história, não haveria Bruno Giorgi, nem uma série de outras coisas que vou contar mais adiante.

Como era filho de italianos, e nesta época as coisas por lá estavam melhores do que por aqui, o rapaz foi para Itália. Ainda jovem, envolveu-se com movimentos antifascistas, chegando até mesmo a ser preso, condenado a sete anos de prisão. Graças à intervenção de um embaixador brasileiro, ficou livre para retornar ao Brasil. Mas ele não sossegou. Também tentou participar da revolução espanhola, mas depois desistiu e foi para França, onde participou junto com outros italianos de um certo movimento antifascista através da arte. Ou seja, o cara odiava o fascismo com todas as forças.

Após todos estes conflitos e contato com muita gente culta, talentosa e engajada (Henry Moore, Marino Marini,Charles Despiau e Aristide Maillol), retornou ao Brasil, mais velho, mais maduro. Agora, fincando raízes, o artista começa suas grandes obras, verdadeiros patrimônios da cultura nacional. Seu estilo foi subdividido em três fases que compreendem sua produção nas décadas que vão de 1940 a 1950. A primeira fase, conhecida como figurativa, teve bastante influência acadêmica com vários retratos, bustos e corpos femininos, ora gordos e opulentos, ora alongados e líricos. Na segunda fase, chamada vegetativa, Giorgi mantém a utilização de figuras com hastes e preocupa-se com o dinamismo das obras. Na última fase, mais conhecida, chamada tectônica, as esculturas assumem um significado mais abstrato e um caráter mais arquitetônico.

O primeiro deles foi o “Monumento a Juventude Brasileira“(1947) nos jardins do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio da Cultura, no Rio de Janeiro.

Anos depois em Brasília, dos monumentos de sua autoria, destaque para “Os Guerreiros”(1959), mas que depois passou a ser chamado de “Os Candangos”. Com oito metros de altura, a estátua erguida em meio à Praça dos Três Poderes, é uma composição frontal e estilizada de dois corpos em pé. O grupo é quase simétrico, exageradamente plano, com pouca massa e muitos vazios. As figuras apoiam-se uma na outra, cada qual portando uma vara-lança; apenas uma se apoia no chão.

Interessante, mas “Candango” era o nome que os africanos usavam para referir-se a seus colonizadores portugueses, termo pejorativo para um individuo ordinário, ruim. Contudo, no Brasil, a palavra mudou sua conotação, agora referindo-se positivamente as pessoas que trabalhavam na construção da capital. Ou seja,Juscelino Kubitschek era um baita “candangão”. Daí o porque da mudança. Anteriormente “Os Guerreiros”, hoje o monumento é conhecido como “Os Candangos”. Em 1959 a palavra ganhava assim outro estatuto , o de sinônimo de desbravador, de homem que confia no progresso, de brasileiro comum, operário de Brasília. Sobre isso, o próprio Giorgi revelou: “Eu fiz os guerreiros que foram fundidos aqui no Rio de Janeiro. E eu tinha feito uma maquete de um metro e meio ai eles aprovaram, a comissão aprovou, inclusive o Oscar Niemeyeraprovou. Então depois eu ampliei aqui, fiz com 9 metros de altura. Depois tem um pequeno pedestal, depois tem dois elementos que se abraçam que chamam de guerreiro, mas o meu sonho era fazer uma homenagem ao candango. Tanto que depois veio pôr nome de candango. Isso aqui é um monumento aos candangos”.

Ainda em Brasília, além da obra citada, temos o “Meteoro” (1967), no lago do edifício do Ministério das Relações Exteriores, localizado no espelho d’água em frente ao Palácio do Itamaraty. Uma de suas obras em bronze, “Herma de Tiradentes” (1986), se encontra à esquerda da rampa de acesso ao Panteão da Pátria Tancredo Neves, uma justa homenagem a Tiradentes. Um dos seus últimos trabalhos foi o monumento “Integração” (1989), no Memorial da América Latina, em São Paulo. Bruno morreu em 1993.

Entre os habitantes da cidade existe um enorme orgulho em relação ao nome do escultor, sendo difícil encontrar alguém que não o conheça. É possível ver na praça da cidade algumas réplicas de suas obras como “A Esfinge”(1960), como também “Os Candangos”. Aliás sobre isso, há curiosidade um tanto trágica, contada pelas pessoas da cidade. Na praça, em meio há alguns jardins, uma mulher se aproximou e colocou o filho entre os braços da esfinge para tirar fotos. O problema é que a estátua já estava um tanto frouxa, e antes que a mãe esboçasse alguma reação, ela despencou sobre criança, matando-a. Em função disto, a estátua foi retirada da praça por alguns anos, mas está de volta, num local diferente.

Uma bela cidade de cruzamento histórico muito interessante com um dos maiores artistas brasileiros. Conivências a parte, é muito interessante os caminhos da história, seus detalhes. Ver que decisões aleatórias podem desencadear numa série de acontecimentos ao redor do mundo nos fazer perceber que não é possível entender o presente sem olhar para o passado. Enfim, vou voltar para o meu descanso. Espero não encontrar mais armadilhas da arte neste final de semana, senão, vou acabar descansando, com o Bruno. Ah! Sobre os habitantes de Mococa: divinamente hospitaleiros.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Faz Diferença Sonhar?

A viagem do personagem nos mostra que por mais esquisito que seja seu sonho, ele deve ser alimentado

por Thiago Miota

Nunca se afaste de seus sonhos, porque se eles forem, você continuará vivendo, mas também terá deixado de existir. Essas palavras não são minhas, mas do grande escritor Mark Twain, que revelam a importância dos sonhos na vida de alguém, por mais desgraças ou sorte que ele tenha. Os sonhos são o tecido da pele do homem.

No entanto, no caso de Henry(Keanu Reeves), nada disto faz sentido. Em O Crime de Henry(Henry´s Crime, 2010, EUA) ele é uma pessoa que apenas se contenta em ser normal. Da casa para o trabalho, da sua esposa de volta para o trabalho, segue sua rotina inerte. Sem sonhos, vê as coisas acontecendo ao seu redor pacatamente, como se os outros tomassem as decisões por ele, completamente refém das circunstâncias.

Tudo muda quando ele é preso por roubar um banco, crime que não cometeu. Condenado a cumprir três anos, vê sua mulher o trocar por outro homem no momento mais trágico de sua vida. Ele não sofre. Na prisão, conhece o velho Max(James Caan), que lhe pergunta qual era seu sonho. “Acho que não tenho nenhum”, responde Henry. “Bem, o verdadeiro crime é você não explorar o seu sonho”. Passado o tempo de sua pena, agora ele tem um sonho: roubar o banco que não roubou.

O longa marca a estreia de Reeves como produtor. Afastado dos holofotes desde os tempos de "Matrix", apesar de ter feito outros filmes como “A Casa do Lago”, o ator não encontrou o prestígio de outrora. Seu sucesso teve efeitos colaterais, marcando-o como inexpressivo em qualquer papel, fato que ele próprio, agora, parece notar. Aqui, a escolha do personagem torna sua limitação uma virtude.

A intenção do filme é transformar todas as tragédias e infortúnios de Henry em fatos engraçados. Não são. Ao longo da trama podemos ver as mudanças, que aos poucos vai encontrando seu lugar na vida, como quando conhece Julie(Vera Formiga), e decide participar de uma peça de Tchekov. Nada disso será problema, desde que você não espere uma comédia, pois se trata de um verdadeiro drama.

A viagem do personagem nos mostra que por mais esquisito que seja seu sonho, ele deve ser alimentado. Por vezes nos dobramos as imposições que a vida nos faz atribuindo explicações à única verdade: falta coragem. O passo seguinte é a frustração, e a falta de sonhos pode nos fazer ter coisas que não escolhemos. Daí a indiferença diante das tragédias. Twain tinha razão. Os sonhos também podem ser um sofrimento.

Um bom começo para Reeves em sua nova função. Para ficar melhor, falta sonhar com roteiros e diretores melhores.

Avaliação: Regular


domingo, 19 de junho de 2011

Casando com a Pessoa Errada

Mesmo prestes a se casar, ele ainda está dividido entre duas mulheres

por Thiago Miota

Apesar de estar um tanto fora de moda, o casamento talvez ainda seja a decisão mais importante na vida de alguém. As juras de amor não são para alguns meses, mas por toda a vida, independente dos mecanismos legais disponíveis para anular este voto. Ninguém casa pensando que vai dar errado. Pelo menos é assim que deveria ser.

Este é o impasse vivido por Tom(Josh Duhamel) em O Casamento do Meu Ex(The Romantics, 2010, EUA). Mesmo prestes a se casar, ainda está dividido entre duas mulheres. Uma delas, Lila(Anna Paquin), sua noiva, aparentemente é a escolha perfeita: linda de morrer, além de rica também tem como virtude ser responsável a ponto de controlar as loucuras dele, ou seja, a garota da vitrine que todos querem comprar, mas somente alguns sortudos podem bancar. Já Laura(Katie Holmes), sua ex-namorada, mesmo não sendo perfeita em seus atributos de beleza, é a pessoa que o inspira, alguém com que ele sabe dividir e expressar seus sentimentos, alguém que consegue extrair o melhor de suas alucinações. O dilema seria uma espécie de decisão entre a melhor escolha e a escolha certa.

Tudo se passa no dia antes do casamento, com todos preparativos, a chegada dos convidados, os melhores amigos dos noivos. Apesar da festa, há um clima estranho no ar, que todos percebem, mas tentam ignorar resgatando lembranças, fazendo piadas, procurando transformar aquele momento em algo inesquecível. Não basta.

Em vários aspectos, o filme é fraco e deixa a desejar, começando pela montagem e edição. Por vezes somos colocados diante de cenas desnecessárias sem relevância para o enredo e muito menos para o entretenimento. O longa, que já é curto, poderia ter menos de uma hora que ainda assim teríamos momentos de tédio. Mas o pior defeito é o desempenho dos atores, em especial aqueles que fazem os amigos dos noivos. A ideia seria representar uma cena nostálgica num instante de transição na vida do amigo onde aparecem todas as lembranças de momentos marcantes que tiveram, mas que agora iria mudar, ou seja, era a parte onde entrava a emoção. Contudo, o que vemos, através dos atores, é apenas um bando de desconhecidos fazendo farra, totalmente sem inspiração.

A parte boa fica por conta do dialogo entre Laura e Tom, ponto alto do roteiro, onde aparecem citações literárias e boas discussões. Ali dá pra perceber que na verdade ele sabe o que tem que ser feito, sabe quem realmente ama.

Enfim, o que temos é nada mais do que o retrato da covardia de uma pessoa incapaz de tomar a decisão certa, para própria vida e de outras. Quem sofre mais não é o preterido e sim o escolhido. Parece absurdo, mas acreditem em mim, ainda existem histórias assim. Os opostos se atraem para depois morrer de tédio. Melhor morrer de emoção.

Avaliação: Ruim

Artigo publico originalmente em http://capitaldaarte.com

Casando com a Pessoa Errada

Mesmo prestes a se casar, ele ainda está dividido entre duas mulheres

por Thiago Miota

Apesar de estar um tanto fora de moda, o casamento talvez ainda seja a decisão mais importante na vida de alguém. As juras de amor não são para alguns meses, mas por toda a vida, independente dos mecanismos legais disponíveis para anular este voto. Ninguém casa pensando que vai dar errado. Pelo menos é assim que deveria ser.

Este é o impasse vivido por Tom(Josh Duhamel) em O Casamento do Meu Ex(The Romantics, 2010, EUA). Mesmo prestes a se casar, ainda está dividido entre duas mulheres. Uma delas, Lila(Anna Paquin), sua noiva, aparentemente é a escolha perfeita: linda de morrer, além de rica também tem como virtude ser responsável a ponto de controlar as loucuras dele, ou seja, a garota da vitrine que todos querem comprar, mas somente alguns sortudos podem bancar. Já Laura(Katie Holmes), sua ex-namorada, mesmo não sendo perfeita em seus atributos de beleza, é a pessoa que o inspira, alguém com que ele sabe dividir e expressar seus sentimentos, alguém que consegue extrair o melhor de suas alucinações. O dilema seria uma espécie de decisão entre a melhor escolha e a escolha certa.

Tudo se passa no dia antes do casamento, com todos preparativos, a chegada dos convidados, os melhores amigos dos noivos. Apesar da festa, há um clima estranho no ar, que todos percebem, mas tentam ignorar resgatando lembranças, fazendo piadas, procurando transformar aquele momento em algo inesquecível. Não basta.

Em vários aspectos, o filme é fraco e deixa a desejar, começando pela montagem e edição. Por vezes somos colocados diante de cenas desnecessárias sem relevância para o enredo e muito menos para o entretenimento. O longa, que já é curto, poderia ter menos de uma hora que ainda assim teríamos momentos de tédio. Mas o pior defeito é o desempenho dos atores, em especial aqueles que fazem os amigos dos noivos. A ideia seria representar uma cena nostálgica num instante de transição na vida do amigo onde aparecem todas as lembranças de momentos marcantes que tiveram, mas que agora iria mudar, ou seja, era a parte onde entrava a emoção. Contudo, o que vemos, através dos atores, é apenas um bando de desconhecidos fazendo farra, totalmente sem inspiração.

A parte boa fica por conta do dialogo entre Laura e Tom, ponto alto do roteiro, onde aparecem citações literárias e boas discussões. Ali dá pra perceber que na verdade ele sabe o que tem que ser feito, sabe quem realmente ama.

Enfim, o que temos é nada mais do que o retrato da covardia de uma pessoa incapaz de tomar a decisão certa, para própria vida e de outras. Quem sofre mais não é o preterido e sim o escolhido. Parece absurdo, mas acreditem em mim, ainda existem histórias assim. Os opostos se atraem para depois morrer de tédio. Melhor morrer de emoção.

Avaliação: Ruim

Artigo publico originalmente em http://capitaldaarte.com

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Com pouco tempo

Apesar de ser um suspense de ficção científica, o filme vai além apresentando questões existenciais

O que você faria se tivesse menos de um minuto de vida? Bem, esse é o tema do novo filme de Duncan Jones, que para quem não conhece, é filho do famoso cantor David Bowie. Contra o Tempo(Source Code, 2011, EUA) conta a história do capitão Colter Stevens(Jake Gyllenhall), que acorda repentinamente dentro de um trem conversando com uma mulher deslumbrante(Michelle Monaghan), desconhecida para ele, mas estranhamente, conhecido para ela. Desnorteado, sai pelos vagões até chegar ao espelho e ver a imagem de uma pessoa que não é ele mesmo. Após alguns minutos, oito mais precisamente, uma bomba explode todo trem, e ele acorda preso numa fria cápsula em alguma base militar altamente secreta sendo interrogado exaustivamente por uma agente sobre a localização da bomba.

Sem as respostas, ele volta para a mesma cena, do zero, mesmo lugar, mesmo trem, mesmas pessoas e acontecimentos. Nova explosão. Mais perguntas. Com o tempo e mais informações, ele entende que está participando de um programa do governo. O projeto baseia-se no fenômeno da sobrevivência dos oito minutos finais da memória pós-morte cerebral. O Dr. Rutledge (Jeffrey Wright), mentor do experimento, capturou os oito minutos finais da memória de Sean Fentress(a pessoa que ele entra) que esteve na explosão e, através do programa computacional “Código Fonte” faz com que Colter seja inserido nesses minutos finais repetidas vezes, através da identidade de Sean. Há um terrorista aprontando uma série de atentados pela cidade, e descobrir a origem daquele é fundamental para evitar os demais. Eis a trama.

Apesar de ser um suspense de ficção científica, o filme vai além apresentando questões existenciais. Colter volta inúmeras vezes para a mesma cena, mas a cada volta, vê as coisas de um jeito diferente produzindo resultados diferentes. Mesmo sabendo que após cada morte ele terá a chance de voltar e fazer às mesmas coisas, aquele fim eminente, a proximidade com a morte, faz com que ele veja a vida de uma forma diferente. E quando percebe isso e olha a seu redor, é como se todas as outras pessoas já estivessem mortas presas em suas rotinas. Ou seja, sua missão de salvar vidas não se resume apenas a bomba.

O argumento do filme é excelente, procura dar boas explicações para criação deste universo paralelo e deixa o gostinho da dúvida em nossa cabeça de se é possível ou não existir algo assim. Como seria nossa vida em outro universo? Tomando decisões diferentes, seriamos diferentes?

Aqui o filho de Bowie prova que pode se desvencilhar do nome do pai, tem talento, mas bem que poderia pegar emprestada a canção “Under Pressure” para trilha sonora. Na sua primeira produção hollywoodiana, saiu-se muito bem, sem apelar para os clichês, com exceção de algumas partes, sem exageros.

Mas então, o que você faria se tivesse menos de um minuto de vida? Talvez o importante não seja como responderíamos essa pergunta, e sim, que entendêssemos sua magnitude e tivéssemos a oportunidade de continuar a viver, para fazer melhor, de uma forma diferente.

Avaliação: Bom

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Duas faces do mesmo casal

Tais histórias são contadas simultaneamente, uma depois da outra. E essa é a graça do filme

Uma relação não chega ao fim por acaso. Assim como pequenas coisas constroem um amor verdadeiro, outras do mesmo tamanho acabam por extirpá-lo. Ambos ou um dos dois pode até tentar ignorar, mas a inércia só faz aumentar a dor, torna as coisas mais difíceis. O fim só espera seu estopim.

Diferente dos romances tradicionais que vemos nas telonas, o filme Namorados Para Sempre(Blue Valentine, 2010, EUA) chega aos cinemas do país para contar diferentes histórias do mesmo casal. Americano, com cara de europeu, o longa surpreende por sua crueza.

A primeira história é de Dean(Ryan Gosling) e sua esposa Cindy(Michelle Williams, indicada ao Oscar pelo papel), pais de uma criança adorável de nome Frankie(uma das mais lindas que já vi). Extremos opostos um do outro - ele sonhador e brincalhão, ela tímida e responsável - ambos encontram dificuldade em lidar com as discussões, desconfianças e rejeições, que dada a frequência em que ocorrem, acabam por tornar o casamento um inferno.

Ao mesmo tempo, vemos outra história, de dois jovens apaixonados, os mesmos Dean e Cindy, com as mesmas diferenças e atributos, desta vez, porém, apaixonados. Nesta parte, tudo funciona, cada coisa em seu lugar, só sorrisos.

Tais histórias são contadas simultaneamente, uma depois da outra. Primeiro a tragédia, em seguida as alegrias que ocorreram antes dela, anos antes. E essa é a graça do filme. Ficamos divididos entre lágrimas, de tristeza e alegria. O contraste dos instantes nos faz pensar em que momento aquilo acabou, se é que chegou a existir de verdade.

Incrível, mas as mesmas qualidades que fizeram Cindy se apaixonar por Dean no passado, hoje, só fazem odiá-lo. Suas virtudes tornaram-se defeitos insuportáveis. Essa mudança é trágica e ele, que não sabe ser outra pessoa senão ele mesmo, tenta desesperadamente reconquistar aquele amor usando as mesmas táticas que já não funcionam mais. E nós vemos como em outro momento elas funcionaram.

Não é possível amar alguém sem ser amado. O amor é um sentimento que clama reciprocidade, construído a cada dia pelos dois da forma mais inesperada possível. Para isso não há receita de bolo, diferente do que os livros de autoajuda e as revistas de plantão tentam nos ensinar. Quando um deles desliga, as coisas param de crescer, entra em cena a inércia.

Provavelmente não seja uma boa escolha para o Dia dos Namorados. Diferente do título em português, ridiculamente escolhido em função da data comercial, aqui eles podem até ser namorados, mas não vão durar para sempre.

Há quem diga que o parceiro ideal seja aquele que nos faz rir. Eu acrescento: o parceiro ideal é aquele que nos faz rir de nós mesmos. O filme nos mostra que quando isso não ocorre, salve-se quem puder.

Avaliação: Bom

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=tgNukjLuwMQ

terça-feira, 31 de maio de 2011

Recomeçando do começo

A novidade em Primeira Classe é que as histórias não necessariamente precisam respeitar seus cânones.

Que a moda em Hollywood é contar a origem das histórias que todo mundo conhece o final não é novidade já há algum tempo. O problema é que após esgotar o lançamento de suas principais franquias, para não perder o ensejo, o jeito que estúdios encontraram para sanar a óbice foi recontar a própria origem, desta vez, porém, de uma forma que ninguém a conhece.

Grande lançamento da semana, menos badalado do que outros do gênero, mas ainda assim grande aposta, X-Men: Primeira Classe(X-Men First Class, 2011, EUA) inaugura uma nova fase das adaptações. O longa conta a história do Professor X, Charles Xavier, e Magneto, Erik Lehnsherr, antes de serem inimigos, quando ambos queriam salvar o mundo em conjunto. Passado no contexto do Pós-Guerra, por volta do ano de 1962, no auge da Guerra Fria com a crise dos mísseis em Cuba, tudo acontece no território em que os EUA e a URSS duelaram de todas as maneiras, inclusive utilizando seus mutantes.

Nem pense em revisitar os quadrinhos. A história contada aqui é de própria autoria do produtor Bryan Singer, que acha a sua melhor do que a original. Portanto, a novidade em Primeira Classe é que as histórias não necessariamente precisam respeitar seus cânones. Comercialmente, a ideia faz sentido, já que este universo deixou de ser habituado predominantemente por fãs de quadrinhos, dando lugar a um público que conhece os heróis através de outros filmes, de outros desenhos, de outros contos.

No entanto, apesar da sacada, a estratégia é arriscada. Recontar a origem significa que o fim não necessariamente deixará de ser recontado. Em se tratando de uma das melhores histórias de quadrinhos, a responsabilidade de fazer outra é no mínimo enorme, em outras palavras, as chances de fracassar aumentam tacitamente. É lançar a sorte ao público.

Grande parte do elenco é composto por jovens, com exceção do ator Kevin Bacon e Hugh Jackman, eterno Wolverine, que faz uma ponta no filme. Apesar de jovem, o elenco é conhecido de outros filmes e séries, todos muito competentes.

Apesar de diferente, o novo enredo contado por Singer muda aspectos pontuais como datas, diálogos e reviravoltas, tal como o professor Xavier ficou na cadeira de rodas. Mas, por outro lado, a essência continua a mesma, sem maiores mudanças nas estruturas. Já que vai mudar, por que não mergulhar de vez em outros mundos? Perde-se a oportunidade de sair do velho maniqueísmo, ponto fraco em X-Men desde os tempos do original. Ou seja, Xavier continua sendo o cara que quer usar os mutantes bonzinhos para salvar a humanidade e Magneto o rancoroso vingativo que não acredita na raça humana. Sabemos que o mundo não é assim, é mais complexo do que isto, e seria ótimo ver nossos heróis enfrentando problemas de verdade.

Até que ponto devem ser respeitadas as histórias? São elas que transformam nossos heróis ou são eles que criam as histórias? A julgar pela cultura neoliberal predominante em nossos tempos, a segunda hipótese demorou para chegar ao cinema dos heróis. Resta saber como o público vai engolir.

A verdade é que ninguém mais aguenta estes recomeços. Até o final do próximo ano teremos outros deles. Fazer o quê? Com pouca criatividade hoje em dia, o jeito é jogar água no chop pra ele durar mais.

Avaliação: Regular

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=_EHcyHFlc6w

sábado, 28 de maio de 2011

Sugestão: Um clássico entre os clássicos

Filme: Além da Linha Vermelha

Direção: Terrence Malick

Ano: 1998

Gênero: Guerra

Elenco: Sean Penn, Geoge Clooney, Nick Nolte, John Travolta

Trilha: Hans Zimmer

Prêmios: Indicado a 9 Oscars e vencedor do Urso de Ouro de Berlim

Bilheteria Total: $81,000,000


Antes de lançar o novo visual do site, já iniciaremos algumas novidades que faram parte da nossa programação semanal e mensal. Dentre elas, uma vez por semana daremos uma sugestão, um filme que deve ser alugado, emprestado ou até mesmo comprado. Ou quem sabe, jogar fora.

Para começar, inspirado no Festival de Cannes deste ano, a primeira sugestão é o clássico Além da Linha Vermelha(The Thin Red Line, 1998, EUA) do diretor Terrence Malick, tão prolixo, que em quatro décadas realizou cinco filmes. Com que ele não existe meio termo, se for para fazer, tem que ser direito, tem que ser marcante, tem que ser eterno. Formado em filosofia, seu talento como cineasta casou dois estilos de pensamentos que capaz de criar formas de arte impensáveis. É como se Nietzsche fosse um cineasta. Imagine o que teríamos nas telas?

Difícil classificar o gênero de suas obras. As histórias e a forma como as conta transcende a qualquer classificação. O mais provavél seria "Guerra", já que temos um enredo que se passa durante a Segunda Guerra, no meio do confronto entre americanos e japoneses, na linha de defesa da Batalha de Guadalcanal, baseado no livro de James Jones. Mas acredite, não é suficiente.

No geral o que vemos sobre guerras nas telas é um desserviço de entorpecimento diante da banalidade de vidas humanas desfalecendo a cada disparo. Terrence faz diferente. Para nos lembrar que ali existe uma vida, e por trás dela todo um mundo particular e único, cada ator em cena é conhecido, muitos deles famosos. É muito provável que se em toda sua vida você assistiu há apenas dez filmes, se assistir este, vai reconhecer no mínimo uns três ou quatro rostos. Não posso recitar todos, mas vai alguns nomes: Sean Penn, Adrien Brody, Jim Caviezel, Ben Chaplin, John Cusack, Woody Harrelson, Elias Koteas, Jared Leto, Dash Mihok, Tim Blake Nelson, Nick Nolte, John C. Reilly, Larry Romano, John Savage, John Travolta, Arie Verveen e George Clooney. Caso não se lembre de alguns deles, copie-os e cole no buscador de imagens do Google, tenho certeza que vai lembrar.

As gravações originais têm ao todo mais de cinco horas de gravação. É claro que após o trabalho de edição, que durou meses, o filme ficou muito menor, totalizando quase três horas. Azar o nosso, porque ainda poderíamos ver cenas com Martin Sheen, Viggo Mortensen e Mickey Rourke. Quem assina a trilha sonora é Hans Zimmer e John Powell.

Você deve estar pensando, “Meu Deus, quanto gastaram para fazer este filme com tantas estrelas?”. Pois é, não foi muito. Aqui, o que paga o filme é poder do nome de Malick. Diz a lenda que quando Sean Penn se encontrou com o diretor, apenas disse: “Pague-me um dólar e fale o que preciso fazer”. Após vinte anos sem filmar, quando os rumores de Malick faria outro filme vazaram, diversos atores foram procurá-lo, desejando fazer parte do filme. Ele literalmente teve que escolher quem o faria. Nomes como Jonnhy Depp, Tom Cruise, Edward Norton e Kevin Costner tentaram, mas não entraram.

A reputação do diretor e sua forma de trabalhar fizeram dele um mito. Mesmo após ter terminado as filmagens, alguns atores pediram para continuar o restante do trabalho das gravações apenas para vê-lo trabalhar.

Sua mente criativa e seu estilo filosófico aparecem nitidamente em seus títulos. Podemos ver diversas tomadas improváveis captando cenas belíssimas sem deixar de focar no tema principal. A forma de construir e apresentar seus personagens são imprevisíveis. Não há uma linha que conduz a narrativa. As coisas estão acontecendo e a câmara parece que tem apenas a função de engradá-las. Agora faça outra pesquisa: digite no google procurando pela sinopse do filme. Tenho certeza que terá dificuldades de conseguir alguma que resuma corretamente a história. Não quero me arriscar, apenas posso dizer que o filme é um recorte da guerra que aconteceu no pacífico durante a Segunda Guerra, dentro de um território que é o paraíso.

Ao ver o filme e todas àquelas desgraças, a sensação de raiva não recaí sobre o homem e sim sobre a vida. Por que ela é tão cruel? Já que ela não pode ser somente boa, porque não pode ser somente ruim? O que torna as coisas, por vezes, insuportáveis é justamente o fato de saber que poderiam ser melhores, de ter sentido ou vivido momentos melhores. Eis a crueldade que aperta o coração.

A guerra não enobrece o homem, não há lição para ser tirada ou amadurecimento. Há muita mentira e hipocrisia para ser contada. Antes erámos todos irmãos, agora lutamos uns contra os outros, nos boicotando mutuamente. Aonde foi que nos perdemos? Talvez os homens tenham uma enorme alma em que todos fazem parte. Não pense que por ser mais bondoso vai sofrer menos.

Recomendação: Compre

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Só se beber

Tudo que poderia ser repetido foi repetido, com o perdão da repetição.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Se Beber não Case 2(The Hangover Part II, 2011, EUA) tem tudo para ser também uma das maiores decepções. Na história, Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms), Alan (Zach Galifianakis) e Doug (Justin Bartha) vão para Las Vegas curtir uma festa de despedida de solteiro, mas se metem numa série de problemas que travam o casamento 40 horas antes do início da cerimônia. Na manhã seguinte, todos estão de ressaca e ninguém se lembra do que aconteceu na noite anterior. Agora, para se livrar dos problemas, os três terão que reconstituir os passos da noite anterior e descobrir em que momento as coisas começaram a desandar.

Não, espere um pouco, desculpe, estou falando da sinopse do primeiro. Mas tudo bem, para saber qual é a do segundo, basta apenas trocar a palavra Las Vegas por Bangcoc.

Inexplicavelmente, parece que a criatividade do diretor Todd Philips se esgotou, e o que ele fez foi apenas manter as mesmas piadas, só que num tom mais exagerado. Daí o porquê de ser em Bangcoc. Os personagens são colocados nas mesmas situações, têm as mesmas reações e fazem as mesmas piadas. O problema de tudo isso é que a piada perde a graça se for contada duas vezes seguidas, seja ela contada num filme ou numa roda de amigos. Tudo que poderia ser repetido foi repetido, com o perdão da repetição.

Uma pena. Depois de "Se Beber Não Case", o diretor também fez a excelente comédia “Um Parto de Viagem”. Seu nome virou símbolo do rejuvenescimento das comédias americanas para adultos. Ninguém aguenta mais ver os filmes de Adam Sandler com as mesmas histórias. Contudo, a julgar por está sequência, voltamos a estaca zero.

Durante a gravação, o elenco criou polêmica quando soube que Mel Gibson seria convidado para fazer uma participação especial no filme. Grande parte da equipe ameaçou abandonar as gravações caso isso se concretizasse. Diante do embaraço, rapidamente colocaram Nick Cassavetes no papel. Uma pena novamente. Vida pessoal a parte, a verdade é que o talento de Gibson como ator é inquestionável, e com certeza seria muito melhor vê-lo no lugar de Cassavetes.

Entretanto, apesar deste caos todo, façamos justiça: Zach Galifianakis continua roubando a cena, nos proporcionando bons momentos de boas risadas.

Sei que já disse isso duas vezes, mas preciso repetir: uma pena. Um dos poucos filmes em que o título em português é melhor do que o original, infelizmente não faz jus a seu antecessor. Entre repetições, melhor ver novamente o primeiro. Se preferir fazer diferente, só veja se beber.

Avaliação: Ruim

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=xyn6TVnkmVc

Exclusivo: entrevista com Paulo Ricardo da banda RPM

No dia 20, última sexta, a banda RPM fez apresentação do primeiro show da turnê "Elektra" no CredcardHall, em São Paulo. E nós da Capital da Arte aproveitamos para bater um papo com o Paulo Ricardo, vocalista da banda, sobre a volta, os planos e o futuro do Brasil.

Confira abaixo, com exclusividade:

Capital da Arte – Paulo, qual o sentimento de vocês em relação a este retorno? Dá pra comparar com o retorno de 2001?

Paulo Ricardo: Estamos nos sentindo como uma banda em início de carreira, a mesma energia, o mesmo entusiasmo, apenas com mais experiência. A grande diferença de 2001 é que agora temos todo um novo trabalho de estúdio, com 12 músicas inéditas.

Capital da Arte - Como você vê o fenômeno que é a banda. Apesar de um hiato de praticamente 20 anos sem lançar um disco de inéditas, o fãs parecem não se incomodar, todo frenesi permanece intocável, e já no lançamento da primeira música “Dois Olhos Verdes” vocês estão no topo novamente. Qual explicação deste fenômeno?

Paulo Ricardo: Poderia levantar algumas hipóteses mas a verdade é que não sabemos também. Apenas procuramos fazer, sempre, o melhor, e quando não estamos 100% dedicados à banda, preferimos focar em outros projetos. Então o público sabe que, quando estamos de volta, é pra valer.

Capital da Arte – Dá pra perceber pelas 4 músicas disponíveis no site que o estilo está diferente. Houve uma influência de algum trabalho específico? Algumas pessoas da imprensa falaram em “The Killers” e “Muse”, bandas que se destacam no cenário internacional.

Paulo Ricardo: Não diria diferente, mas atualizado. Há muitas bandas hoje com influências dos anos 80, e nós obviamente representamos muito bem esta sonoridade no Brasil. Nossa maior referência foi, realmente, RPM.

Capital da Arte – Eu, particularmente, gostei muito da música “Muito Tudo”, uma letra muito bem escrita, com uma crítica belíssima dos nossos tempos, lembra muito “Alvorada Voraz”. No refrão você fala “que queria mudar o mundo, mas sente que o as vezes o mundo te muda”. Em relação a geração dos anos 80, vocês tentaram mudar o Brasil, mas você sente também que o Brasil mudou vocês?

Paulo Ricardo: Não só o Brasil mas a própria vida. Todos evoluímos, amadurecemos, nos surpreendemos e nos decepcionamos com os acontecimentos. E com o tempo, aprendemos a conviver com nossas limitações e aquela sensação que bate de vez em quando de que, como disse John Lennon, o sonho acabou. Mas o importante é olhar para a frente e continuar produzindo.

Capital da Arte – A juventude se via muito representanda pela banda, as músicas eram como um hino, principalmente “Revoluções por Minuto”, censurada na época, e “Alvorada Voraz”. Hoje, a juventude se sente carente, como disse o profeta Humberto Gessinger, “é uma banda numa propaganda de refrigerantes”. Por que não temos mais pessoas assim? Foi o contexto histórico? A ditadura? O tropicalismo? Milton Nascimento e Chico?

Paulo Ricardo: O contexto histórico, sem dúvida. Mas sempre vão existir grandes artistas e bandas em propaganda de refrigerantes. É só procurar.

Capital da Arte - O que os fãs podem esperar das próximas músicas?

Paulo Ricardo: Canções dançantes, vibrantes, eletrônicas e muito rock moderno, com letras cínicas e crônicas do nosso tempo.

Capital da Arte – Quais serão os planos para os próximos meses? Quando teremos o album de inéditas na integra?

Paulo Ricardo: Estamos em turnê, percorrendo o Brasil todo, lançaremos mais 4 canções em junho e o álbum completo, Elektra, em julho. E dia 20 de agosto estaremos ao vivo no Criança Esperança da Rede Globo.

Capital da Arte – Para encerrar, o que você espera do Brasil para próximos anos? Muita festa e pouco conteúdo?

Paulo Ricardo: Há um crescimento desordenado, falta de infraestrutura e de educação, há vagas mas faltam profissionais qualificados, enfim, o caos de sempre, mas, diferentemente de outros tempos, há um crescimento, que deve ser aproveitado da melhor maneira possível. Sou otimista.

Matéria publicada em parceria com o Jornal da Cidade. Todos direitos reservados.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Projeto Brazucah de Cinema Nacional terá debate

A matéria foi publicada hoje, pela excelente repórter Márcia Mazzei.


O Projeto Cultural de Cinema Nacional está de volta a Jundiaí, com a exibição, hoje, do longa nacional "Apenas o Fim". A sessão começa às 19h10, no campus central do Centro Universitário Padre Anchieta. A entrada é gratuita. Lançado em 2008, o filme conta a história de Antônio, interpretado por Gregório Duvivier, e sua namorada, interpretada por Erika Mader, que discutem sua relação antes de se separar.



Feito por estudantes da PUC-Rio, o longa ganhou prêmios de Melhor Filme do Júri Popular e Menção Honrosa do Júri Oficial no Festival do Rio 2008 e o Prêmio de Melhor Filme do Júri Popular na 32ª Mostra de São Paulo. Também foi exibido em Festivais de Cinema no mundo inteiro.

Como aconteceu na edição passada do projeto, após a exibição do filme, convidados especiais promoverão um debate com a plateia. Desta vez, estarão presentes Ana Claudia Fossen, doutorando em Psicologia pela Universidade de Madrid e a professora Lucia Helena, Doutora em Educação, membro efetivo da academia de letras de Jundiaí.

Origem - O Projeto Cultural de Cinema Nacional da Rede Brazucah chegou em Jundiaí em abril deste ano com o desafio de minimizar o preconceito ainda existente em relação ao cinema nacional. De acordo com Thiago Rodrigues Miota, agente de exibição do projeto, que representa a Brazucah, a qualidade das produções nacionais ainda é questionada, por falta da oportunidade de prestigiar filmes de qualidade.

"Daí a urgência do projeto, que busca divulgar o cinema nacional e formar um público para este cinema", conta Miota. "Apenas o Fim" será exibido gratuitamente, no Anchieta - Campus Anhanguera (Km 55).



por MÁRCIA MAZZEI


Matéria publicada originalmente no Jornal de Jundiaí