terça-feira, 12 de abril de 2011

Amor?

O amor está muito próximo do ódio. O contrário do amor, portanto, é a indiferença e a prova que o filme nos dá sobre isso é justamente essa: talvez ainda exista amor

O que faz alguém continuar com um relacionamento que só gera sofrimento? Amor? Bem, é exatamente isso o que mais novo filme de João Jardim(Amor?, Brasil, 2011) tenta responder. Após o sucesso de seu documentário Lixo Extraordinário que recebeu indicação ao Oscar deste ano, o diretor segue agora incansável na divulgação de seu mais novo longa.

O filme conta a história de 8 pessoas através de seus depoimentos, todos interpretados por atores, relatando como se sentiam dentro duma relação conturbada, tanto no caso da vítima como do agressor. O resultado são palavras que machucam o próprio telespectador diante de tanta sinceridade. Não pense que seja um filme que fala meramente da violência conjugal. Na verdade, o filme fala sobre o amor.

No início, temos o depoimento de Laura, interpretada por Lilian Cabral, que afirmava que na relação os dois se agrediam. “Ele falou: ‘você é daquele tipo de pessoa que sempre precisa de um elogio?’, como se precisar de um elogio fosse um defeito, entendeu? Isso perturbou uma pouco minha cabeça. Mas um dia eu criei coragem e disse: ‘Olha aqui Marcos, eu preciso de elogio sim, todo mundo precisa de um elogio”, revelando seu sentimento de invisibilidade diante do marido, algo que a fazia alimentar a sua baixa estima, típica situação de um ciclo que escraviza. A pessoa sente-se tão mal com a situação que começa a achar que ela mesma é a culpada do problema e acaba por interpretar como afeto um verdadeiro ato de violência.

Depois temos o depoimento de um agressor interpretado por Eduardo Moscovis, em excelente atuação, que assusta por sua lucidez e consciência como homem violento. Como foi que aquilo começou? “Eu vi minha mãe ser agredida por meu pai e outros de seus companheiros. Agredia outras mulheres como uma forma de redimir minha mãe. No caso do meu pai não, ele batia porque tinha razão. Um homem não pode ser humilhado”. Curiosamente, durante o depoimento, ele ficava com o celular no ouvido para constatar que sua companheira estava escutando o que estava dizendo. "Eu partia para agressão. Se a mulher não gostasse, eu recuava, agora, se gostasse, eu não tinha medida, podia até machucar", completa o personagem.

As pessoas que aparecem no filme são de classe média, aparentemente abastadas sem maiores problemas em suas vidas. O que as fazia ser assim era um série de sentimentos desenvolvimentos por alguém que acreditava amar. A insegurança de não ser amado como devia, o ciúme doentio, geralmente reflexo da própria atitude em relação ao sexo oposto e a punição.

Jardim explicou que ao longo do processo entrevistou 40 pessoas. Destas 40 pessoas, ficaram os depoimentos de 8. Sobre o roteiro, disse que não mudou absolutamente nada, nem mesmo as citações de Nelson Rodrigues feitas por Lineu, interpretado pelo sempre eficiente Ângelo Antônio. Neste caso, por que não colocar os entrevistados de verdade então? Por motivos óbvios, ninguém quer aparecer para falar abertamente de um assunto tão delicado, tão vergonhoso, tão humano. Para dar credibilidade às interpretações, Jardim fez diversos ensaios até que achasse que os atores estivessem preparados, para somente então gravar o depoimento na integra, em apenas uma tomada, tal como na realidade. Curiosamente, o diretor revelou que os homens tiveram mais dificuldade, precisaram de inúmeros ensaios.

“Queria trazer uma familiaridade, transformar aquilo em algo universal e para isso, misturei os depoimentos para descaracterizá-los de qualquer pessoa. O filme não é sobre aquelas pessoas, o filme é sobre nós mesmos”, diz Jardim. E é exatamente neste ponto que o diretor acerta. A sensação de que qualquer um de nós poderia fazer o mesmo nos faz parar para pensar. Afinal, a violência física nunca é o primeiro passo, ela começa através de pequenas agressões psicológicas. Quando chega ao ponto da violência física de fato, ambos já estão seriamente machucados.

O que o filme tem em comum com os demais trabalhos do diretor fica evidente na temática: autoestima. No final, o filme fala mais sobre amor do que violência, mais sobre cumplicidade e obsessão. Apesar de casos extremos, a violência está presente em grande parte dos relacionamentos, muitas vezes de forma camuflada. O processo se torna uma doença, um ciclo vicioso.

Nas palavras de Alice, que dá o último depoimento: “Eu não fui embora porque gostava dele, ele tinha o controle e dominação sobre mim. Minha vida se tornou um inferno. Você passa a ser um não ser”.

O amor está muito próximo do ódio. O contrário do amor, portanto, é a indiferença e a prova que o filme nos dá sobre isso é justamente essa: talvez ainda exista amor. Mas que tipo de amor?

O filme estréia nesta sexta, dia 15. Consulte a programação de sua cidade.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=ZyYeYZQHj0o

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