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sábado, 21 de maio de 2011

A volta do RPM

Apesar de tanto tempo, os fãs continuam fiéis. Na sexta, ingressos esgotados.

O rock brasileiro já teve dias melhores. Nos anos 80, era o representante da cultura brasileira, encantando gerações e fazendo revoluções. Protagonista deste cenário, a banda RPM deixou muitos órfãos, e após brigas e separações, estão de volta.

Na última sexta, em São Paulo, a banda fez o primeiro show da turnê "Elektra", mesmo nome do álbum de inéditas lançado aos poucos na internet, através site oficial da banda. Apesar de tanto tempo, os fãs continuam fiéis. Na sexta, ingressos esgotados.

Na abertura, de cara uma música inédita, “Muito Tudo”, com uma letra voraz, criticando nossos tempos de “muita informação e pouco conteúdo”, bem ao verdadeiro estilo RPM. Em seguida, o novo hit “Dois Olhos Verdes”, primeiro lugar em diversas rádios do país, com refrão um tanto pegajoso(na saída, dava pra ouvir as pessoas cantando). Ali já dava pra perceber que a banda se atualizou, cantando ao estilo de bandas da nova geração do rock como “The Killers”, sem também perder sua essência. Agradou a todos, velhos e novos.

A verdade é que o público estava ali para ouvir os clássicos. E na quarta música a banda tocou “Louras Geladas”. Aí a coisa mudou de figura, todos começaram a se mexer e cantar junto com Paulo Ricardo.

Após uma sequência de músicas tidas como “lado B”, a poeira baixou e começaram as românticas. Estranho, parecia que até ali os músicos estavam nervosos, não conseguiam se soltar. Não era o RPM que todos conheciam. Mas, com as românticas, a coisa muda de figura, desta vez no palco, e eles se soltam. O público vai ao delírio, principalmente as mulheres, com “A Cruz e a Espada” e depois “London, London”.

O show fica empolgante, e as músicas agitadas retornam com “Revoluções por Minuto”, seguida de “Alvorada Voraz”, ponto alto da noite. Mas foi mesmo “Rádio Pirata” que fez todos ficaram em pé, pedindo e cantando em uníssono pela revolução. Bons tempos. Para encerrar, não podia faltar, “Olhar 43”.

Com o repertório tradicional esgotado, a banda volta para o bis executando outra música nova, “Crepúsculo” e novamente “Dois Olhos Verdes”. Tudo bem que é música de trabalho, mas uma banda do calibre do RPM não precisava tocar duas vezes a mesma música no mesmo show, a menos que o público pedisse, como nos velhos tempos, o que não foi o caso.

O retorno da banda é muito bem-vindo ao rock nacional, carente de uma voz para representar a juventude. Mesmo após tanto tempo, a banda mantém suas características principais: romantismo político, originalidade e atitude. Em termos técnicos, os músicos estão cada vez melhores, principalmente a guitarra de Deluqui e os teclados de Schiavon. E sim, Paulo Ricardo, beirando os 50, ainda é um galã.

Avaliação: Bom

Revoluções por Décadas

Aos poucos a poeira foi baixando e eles foram voltando, e agora estão de volta

Eles estão de volta, de novo. O maior fenômeno da história do rock nacional com milhões de discos vendidos em tão pouco tempo subiu ao palco na última sexta-feira, 20 de maio, em São Paulo no Credcardhall. E com tudo o que tem de melhor: Paulo Ricardo, Luiz Schiavon, Fernando Deluqui e Paulo P.A Pagni. Incrível, mas mesmo depois de tanto tempo, eles ainda são um fenômeno. Como explicar isso?

Criada em 1983, mas lançada nacionalmente em 1985, a banda RPM(a sigla de Revoluções por Minuto) virou febre em questão de meses, uma espécie de “beatlemania” brasileira. Com músicas eletrizantes, romantisco político e originalidade, o disco "Revoluções por Minuto" é considerado uma obra-prima que faz parte de qualquer antologia da música brasileira. Era a banda do momento, no lugar certo, no país certo. Das onze faixas do disco, oito tocaram exaustivamente nas rádios. Estás incluam “Louras Geladas”, “Olhar 43”, “Revoluções Por Minuto”, “Alvorada Voraz”, “A Cruz e a Espada”, “Juvenília” e “Radio Pirata”.

Para se ter uma ideia do fenômeno, até mesmo músicas que não estavam no álbum, mas que somente eram tocadas no show, como “London London”, viravam hits nas rádios de todo país através de gravações amadoras realizadas durante os shows. Teoricamente a música não existia em lugar nenhum, mas diversas versões eram pedidas sistematicamente em todo país.

Durante a turnê, o megaempresário Manoel Poladian assinou contrato com a banda e contratou ninguém menos que Ney Matogrosso para orientar os quatro jovens. Ney os achava muito tímidos, muito acanhados, sentia que precisavam liberar sua sexualidade. Com isso, a postura em palco mudou radicalmente, um novo disco foi lançado, “Rádio Pirata Ao Vivo”, e o mito estava criado. A partir daí as coisas perderam o rumo. Nas palavras de Paulo Ricardo: "Nosso sonho chegava até ali, não imaginávamos o que viria depois".

Infelizmente o sonho que ninguém sonhou, mas que se realizou em tão pouco tempo acabou também da mesma forma que veio, em pouco tempo. Sem saber lidar com tanto sucesso, o ego de cada integrante se inflou e as brigas começaram, principalmente entre Paulo Ricardo e Luiz Schiavon. Em certo episódio, pouco antes de um show no estádio do Macaracãnazinho, a banda cansou de esperar por Paulo e foi sem ele. Claro que ele chegou depois, mas o clima azedou. Não foi isso que detonou o fim, mas era certamente o estopim.

Em 1987 a banda anunciou a primeira separação, que também não durou muito. Retornaram meses depois com o disco “Quatro Coiotes”, que vendeu na época, tanto quanto o rei Roberto Carlos, mas que não era nem sombra do sucesso anterior. As brigas voltaram, e a banda acabou novamente.

Apesar de outros discos, a verdade é que a banda teve um hiato de praticamente 15 anos, e retornou apenas em 2001 gravando a releitura “Vida Real”, lançada para o programa "Big Brother" da Globo, espaço este, aliás, que nunca fechou as portas para banda, dado o carinho de algumas pessoas da emissora, como Fausto Silva. A saudade bate, a banda retorna e lança um disco ao vivo pela MTV, fazendo uma releitura das músicas anteriores, com poucas inéditas. Em termos técnicos, o melhor disco da banda, qualidade indiscutível.

Impressionante, mas mesmo após tanto tempo, o sucesso também voltou, os velhos fãs ainda os amavam e novos embarcaram. Os planos foram refeitos, um novo disco estava para sair. Porém, no ano seguinte, a banda anuncia a separação. Não há esclarecimento, mas rumores diziam que o motivo foi que Paulo Ricardo havia registrado os direitos da banda em seu nome. O fato é que existiu uma briga judicial, e no site oficial da banda por algum tempo havia uma mensagem de Schiavon tentando explicar o ocorrido.

Em 2008 um novo retorno é esboçado com o lançamento de um "Box" de todos os discos, comemorando os 25 anos da banda, incluindo, claro, apresentação no Faustão.

Aos poucos a poeira foi baixando e eles foram voltando, e agora estão de volta. Segundo Paulo Ricardo, o disco novo está pronto, mas apenas quatro músicas estão disponíveis no site(www.rpm.art.br) para download gratuito. O primeiro single chama-se “Dois Olhos Verdes”, que mesmo lançado há apenas uma semana, já figura em primeiro por diversas rádios. As influencias são claras, de bandas da nova geração como “Muse” e “The Killers”, provando que sabem se reinventar, diferente de outros. Agradou a todos, velhos e novos.

Espera-se que agora, após quase 30 anos, a banda termine seu trabalho. Dado o histórico, todos sabem que tudo pode acontecer, independente do dinheiro ou sucesso envolvido. Talvez essa seja a explicação do frenesi interminável após cada retorno: todo mundo quer aproveitar, pois nunca se sabe se será a última chance.

A primeira música do show, “Muito Tudo”, do repertório de inéditas, tem um refrão interessante: “Eu queria mudar o mundo, mas às vezes sinto que o mundo, me muda”. Será que estes quatro jovens que queriam mudar mundo, ou pelo menos o Brasil, foram mudados por ele? Esperamos que sim, para melhor, e que as revoluções voltem a ser por minuto, e não por décadas.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Música, um mero detalhe

Talvez o show tenha sido o melhor da vida de muitos dos presentes. A verdade é que a banda fez muito barulho numa apresentação para os olhos ver, deixando os ouvidos em segundo plano, algo não necessariamente ruim


Na última quarta-feira, 13 de abril, entraria no palco do Morumbi em São Paulo o melhor conjunto musical da atualidade, talvez um dos maiores que já existiu. Pelo menos essa era sensação dos fãs antes de começar o espetáculo da banda irlandesa de rock U2, liderada pelo astro pop e líder político Bono Vox.

O clima no estádio era tranquilo, nada parecido com o de qualquer outra apresentação do gênero, onde estamos acostumados a ver um público predominantemente jovem, camisetas pretas e longos cabelos nas costas. O que se via no estádio era um clima de paz, famílias de três gerações em perfeita harmonia.

Na abertura, apresentação da banda Muse, de enorme sucesso nos EUA, porém não muito conhecida por aqui, salvo pela música tema do filme Crespúsculo. Quem foi ao show sem se preocupar com eles ganhou uma agradável surpresa. Num rock a estilo ala Radiohead, a banda mostrou que pode num futuro não muito distante voltar e fazer sua própria apresentação no estádio.

Chegada a hora do show, era nítida a ansiedade das quase 90.000 pessoas no estádio. O monstruoso palco só podia gerar a maior das expectativas. O atraso aconteceu, mas foi pequeno. A entrada tranquila de cada integrante enlouqueceu o estádio que foi abaixo logo na primeira música “Even Better Than The Real Thing” do álbum Acthung Baby, que além desta, teve mais duas músicas. Em seguida a banda emendou duas músicas último álbum “No Line in the Horizon”, que apesar de serem boas, não foram acompanhadas em coro. Pode-se dizer que o show começou mesmo com o sucesso “Elevation”, para depois abrir os clássicos “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e “Pride (In The Name Of Love)” cantados belamente pelo público num dos melhores momentos do show.

Uma pausa para um convidado especial, diferente dos dois primeiros dias de show do fim de semana. Sobe ao palco Seu Jorge com um “Boa noite Brasil”, para em seguida, com seu violão, cantar com Bono aos seus pés, literalmente, “The Model”.

O carisma do vocalista é impressionante, que arrisca algumas palavras em português, mas que na maior parte do tempo é auxiliado por uma legenda meia-boca ao longo dos longos discursos no telão acima do palco. Nada disso incomoda aos fãs. Além disto, a performance dos demais integrantes foi impecável.

No entanto, nem tudo foi perfeito no show. Fora o monstruoso palco que exibia uma particularidade em cada música numa pirotecnia exuberante, as mensagens políticas cansaram um pouco. Para quem é fã da música “One” e gosta de ouvir e pensar naquela pessoa teve a imaginação roubada pelas homenagens e discursos da ONG do vocalista, de mesmo nome da canção. Aliás, antes do show, diversos jovens foram espalhados pelo estádio a fim de conseguir novos membros pela causa. Foi assim com “Sunday Blood Sunday”, para os países em ditadura como a Líbia, “Beautiful Day” que antes teve um poema lido por uma moça que subiu ao palco vindo da plateia, “Walk On” em homenagem a Suu Kyi e “Miss Sarajevo”, que Bono arriscou uma de Pavarotti, algo que nos fez sentir saudades do tenor.

A banda encerrou o show e voltou por duas vezes. Na última, finalmente o que todos aguardavam ansiosamente, “With Or Without You”, momento que os casais eternizaram se abraçando ou ligando para quem não pôde estar lá. Com certeza este foi o ponto alto do show, viu-se muita gente aos prantos de emoção. Por fim, para encerrar de vez, a bela música “Moment Of Surrender”.

Talvez o show tenha sido o melhor da vida de muitos dos presentes. A verdade é que a banda fez muito barulho numa apresentação para os olhos ver, deixando os ouvidos em segundo plano, algo não necessariamente ruim. A banda por si mesma carrega um peso enorme de superação em cada apresentação, algo que mais atrapalha do que ajuda. Os fãs não se importam, estão num sonho e a banda sabe fazer isso muito bem. Para quem não pode ir, fica o arrependimento e a torcida para que a banda volte o quanto antes. Se o show será melhor que este, o histórico da banda mostra que a cada tour os irlandeses vão provando para cada vez mais pessoas que talvez sejam mesmo o melhor conjunto musical da atualidade.

Avaliação: Bom