sexta-feira, 1 de julho de 2011

Pirotecnia Deslavada

No longa tudo é secundário perante os efeitos, inclusive a própria história, que parece atrapalhar a ação do filme

por Thiago Miota

Ele é o diretor das catástrofes. Em sua lista aparecem “Armageddon”, “A Ilha”, “Transformes” e “Tranformers: A Vigança dos Derrotados”, sem contar os terrores que produziu como “Sexta-Feira 13” e “A Morte Pede Carona”. Nos tempos em que as pessoas parecem incapazes de se concentrar somente numa coisa só, suas habilidades pirotécnicas tornam-o uma espécie de zeitgeist dos cinemas.

Estou falando do cineasta Michael Bay, que dirige Transformers: O Lado Oculto da Lua(Dark of the Moon,2011,EUA),aparentemente fechando a trilogia. Conhecendo seu currículo, pode-se imaginar o que teremos nas telas.

Desta vez, a história do filme remete a Guerra Fria(com certeza o contexto mais clichê do cinema), no período da corrida espacial entre Estados Unidos e URSS. Sabe-se que os americanos chegaram primeiro, mas foram os russos que estrearam as câmeras. Um dia Optimus descobre que os humanos lhe esconderam algo ocorrido no lado oculto da Lua. Trata-se da queda de uma espaçonave vinda de Cyberton, comandada por Sentinel Prime, que desencadeou a corrida espacial. Agora os Autobots precisam despertar Sentinel, que julgam fundamental para deter os Deceptions. Contudo, eles não imaginavam que aquilo pudesse ser uma armadilha.

No longa tudo é secundário perante os efeitos, inclusive a própria história. O roteiro do filme é tão ruim que nem atores de altíssimo nível como John Turturro, Frances McDormand e John Malkovich conseguem dar sentido para o caos. Somente Shia LaBeouf parece acostumado com tudo aquilo.

Como brigou com o diretor, a atriz e musa dos filmes anteriores, Megan Fox, foi substituída. Para explicar o fato, o personagem de LaBeouf diz que foi chutado, mas que agora está feliz pois encontrou o amor de sua vida, ou seja, a outra não era tudo aquilo. O desenrolar da trama não desenrola, apenas uma confusão de quem vem a Terra, quem vai ficar com o poder, algumas intrigas malfeitas e piadas espalhadas no meio das cenas de ação. Nas poucas vezes que os diálogos aparecem, para não atrapalhar, apenas servem para explicar algum ponto nebuloso do filme.

São mais de duas horas e trinta minutos, um verdadeiro martírio. Poderia ser apenas uma, e ainda seria cansativo. Os feitos especiais e a produção são excelentes, mas depois de alguns minutos perdem a graça.

Se foi tão difícil para assistir, imagine para Michael Bay dirigir. Aliás, antes de começar as filmagens do terceiro, ele próprio revelou que o segundo “foi um lixo”, explicando que havia sido assim por causa da correria. Só que desta vez não há desculpa, e parece que o resultado não ficou muito diferente do último.

A estreia foi acertadamente adiantada para o dia 29 de junho nos Estados Unidos, reservando a sexta para o restante do mundo. Com o que foi arrecadado até agora, estima-se que, somente nesta semana, o filme arrecade cerca de U$350 milhões de dólares. Enfim, eles sabem o que estão fazendo. Talvez venham mais histórias por aí.

Um filme bonito para se ver, mas extenuante de se assistir.

Avaliação: Ruim

Artigo publicado originalmente em www.capitaldaarte.com

Famílias Perdidas

Infelizmente há pessoas que não podemos substituir. É preciso ser forte para entender e aceitar quando perdemos alguém para sempre

por Thiago Miota

As famílias formam à base de qualquer sociedade. Se algum país, estado ou cidade não vai bem e você quiser olhar fundo para encontrar o verdadeiro problema, invariavelmente vai acabar chegando na família. Ela não é culpada de tudo, mas é onde tudo começa. Ignorar este fato pode ser um sério problema.

O filme Corações Perdidos (Welcome to the Rileys, 2010, EUA, Inglaterra) representa muito bem o que estou dizendo apresentando a vida de duas famílias esfaceladas. Numa delas, temos Doug(James Gandolfini), um homem bem-sucedido, empresário, praticamente aposentado, muito bem casado, mas que leva uma vida vazia. Sua vida perdeu o sentido quando a filha, de 15 anos, morreu vítima de um acidente. Sem ela, sua família não foi mais a mesma. Sua esposa Lois(Melissa Leo) jamais saiu de casa depois disto, sequer para pegar as cartas do correio. Com o tempo eles se distanciaram cada vez mais.

As coisas mudam quando Doug descobre que sua esposa comprou uma lápide ao lado do túmulo da filha, como uma espécie de planejamento para o futuro. Isso o enfurece e desesperado com a vida que leva como se fosse uma espécie de morto que faltasse apenas enterrar, sente que precisa fazer alguma coisa, mas não sabe o quê. “Não estou morto”, diz, “há muitos lá fora que estão mortos e precisam de lápides, mas nós não.”

Numa convenção do trabalho, em Nova Orleans, ele sai abruptamente até chegar num clube de strip. Lá vai parar, por acaso, num quarto de uma stripper, que fica incomodada com o fato de ele não querer transar com ela. Depois de tanto insistir, pensando que ele é um policial, sai aos berros pela casa. No entanto, os dois se encontram, por acaso novamente, e ele pede desculpas, o que culmina numa amizade. Doug liga para esposa, informando que não voltará para casa.

A stripper, interpretada por Kristen Stewart de “Crepúsculo“, sozinha, forma a outra família. Ainda criança, ela perde os pais, também num acidente e acaba por levar uma vida promíscua, sem direção por falta de orientação. Doug enxerga nela a oportunidade de continuar cuidando de sua filha.

A história sofre diversas reviravoltas, que apesar das diferenças e momentos alegres, acaba sendo um retrato fiel de uma família, no caso, remendada, com todas suas contradições. Doug e Lois formam a parte da família sem uma filha e o estrago que isso causa é de certa forma amenizado por uma adolescente sem família, a segunda parte que se complementa.

Temos aqui um verdadeiro drama, coroado por belas atuações que nos fazem sentir a angústia de viver no vazio por estar sem as pessoas que amamos. Jake Scott, o diretor, tem nas mãos seu primeiro trabalho nas telas e mostra que saber fazer mais do que clipes musicais. A trilha sonora, por vezes imperceptível, dá o tom certo para os momentos vazios, aqueles onde sequer podemos ouvir nosso próprio coração.

Infelizmente há pessoas que não podemos substituir. É preciso ser forte para entender e aceitar quando perdemos alguém para sempre. Como disse Hector Abad Faciolince, há momentos na vida em que só podemos nos divertir, mas há outros em que só podemos sofrer. Se sobrevivermos a isso, quer dizer que amadurecemos.

Avaliação: Bom

Artigo publicado orignalmente em www.capitaldaarte.com